14 de junho de 2020

Regresso a Hydra


 
Everybody has special and unique qualities. This is, of course, the feeling of youth, but in the glorious setting of Hydra, all these qualities were magnified”, disse Leonard Cohen sobre as pessoas que conheceu em Hydra e o estilo de vida hedonístico a que aí se dedicou. Foi com esta frase de Cohen na cabeça que, há quase um ano, me pus a caminho de Hydra. O meu contexto, convenhamos, era bem diferente do de Leonard em 1960, quando aí aportou pela primeira vez. Já me faltava uma boa parte do “feeling of youth” que os vinte e cinco anos de Cohen traziam consigo, assim como a visão romântica e sonhadora própria de quem, como Leonard, chegava com uma coleção de poemas debaixo do braço e dois mil dólares de um prémio literário no bolso. Cohen vinha para passar uma temporada, na expetativa de que os ares da ilha o inspirassem na escrita da sua primeira novela. Eu, talvez para não cair nas tentações do anunciado “glorious setting” de Hydra, já tinha bilhete de volta para daí a quatro dias. E, the last but not the least, quando pus o pé em terra, já me fazia acompanhar pela minha Marianne, ao contrário de Cohen que acabou por descobri-la nos meandros da cena artística de Hydra.  

Tudo o mais que a Cohen aconteceu em Hydra é do domínio público, mais ou menos romanceado, e está exemplarmente retratado no magnífico documentário de Nick Broomfield “Marianne & Leonard: Words of Love” (disponível em DVD e num videoclube perto de si): o encontro com Marianne, talvez o último exemplar de uma espécie, a musa, que o fenómeno #metoo condenou definitivamente à extinção, dessa epifania nascendo outra, por ela impulsionada, que converteu o Cohen poeta e novelista no songwriter que ficou para a História. Certo é que, e aqui não há ponta de lenda ou romance, sem Marianne não existiriam as canções de Cohen que hoje soletramos, desde logo a óbvia "So Long, Marianne" (que chegou a ter por título "Come On, Marianne", no que foi entendido como um apelo de Cohen a Marianne para que a relação de sete anos, entretanto desfeita, voltasse ao que tinha sido). E certo é também que sem Hydra, um lugar sem tempo onde, do amor às drogas e às artes, tudo era vivido em plena liberdade por aqueles que aí acorriam (e onde muitos milionários acostaram nos anos 60, mesmo que aí se pudesse viver com mil dólares o ano todo), Cohen nunca teria sido Cohen, mesmo com todas as intermitências, que eram também as da alma inquieta e insatisfeita de um homem sempre em fuga de si próprio, de uma década aí vivida.  

Com os meus olhos de viajante de passagem, pude ver ou pressentir, por todas as vielas de Hydra por onde passei em julho de 2019, que já não há poetas de viola em punho a versejar nos cafés como Cohen, musas de beleza escandinava como Marianne a inspirar serenatas em cada esquina, ou a ilusão de felicidade do amor livre e drogas psicadélicas dos loucos anos 60 da ilha. Mas, olhando para a Hydra de então das imagens de arquivo do documentário de Nick Broomfield, constato que o essencial, o tal “glorious setting” de uma ilha parada no tempo – na qual só de barco se acede às mesmas enseadas de cortar a respiração onde Marianne e Leonard iam a banhos, o burro continua a ser o único meio de locomoção e os escassos restaurantes e locais de pernoita turística servem apenas aqueles que venham com boas intenções –, pouco ou nada mudou. Talvez assim tenha ficado, tão imutável quanto irresistível nos seus encantos, para melhor dissimular os perigos que dizem encerrar. Os do tal estilo de vida hedonístico de que falava Cohen, e que, mesmo sem amor livre ou drogas psicadélicas agora, pode continuar a fazer juz ao nome da ilha, ou não fosse a Hidra, na mitologia grega, um monstro com corpo de dragão e várias cabeças de serpente, tão venenosa que matava quem dela se aproximasse apenas com o seu hálito e cheiro. Não é de descartar o que diz a voz das suas gentes: que, embora derrotada por Hércules (Héracles, em grego) num dos seus doze trabalhos, assume agora a forma de belas enseadas e praias.

13 de junho de 2020

A Juventude dos Pássaros


A JUVENTUDE DOS PÁSSAROS

Seguia o voo das aves
pelas suas agudas sombras rápidas
no prédio da frente,
no vidro da janela.
A voraz queda a pique.
Mas nenhum corpo de pássaro
sequer roçou o alcatrão morno.

As aves,
 no exercício da sua natureza,
divertem-se a testar
os limites da destreza das suas asas,
montanhas russas de prazer
entre mínimas gotas de chuva
no Verão que se promete.

A queda está apenas no olhar de quem vê sombras.

12 de junho de 2020

Vaidade e presunção, e não me arrependo.

revista Fluir, revista digital de literatura e artes, entrevistou-me, na minha lamentável condição de editor, para o seu número 5. A revista, que é dirigida por José Pacheco, já existe desde Setembro de 2018 e tem colaborações admiráveis. Quem me entrevistou foi a Ana Cristina Marques. Deixou-me de cara à banda quando me disse que Arturo Pérez-Reverte, num dos seus romances, fala em Lisboa com um editor português chamado Manuel Fonseca, cuja maior virtude, interpreto eu, é a sua bela e álacre mulher.  Eis a única coincidência. Seguem-se sete respostas a sete perguntas.
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O editor em animada e hilariante actividade. Na foto, além do editor rouge, Pedro Norton, Fernando Alvim, Pedro Bidarra e Henrique Monteiro
Vaidade e presunção, e não me arrependo
Entrevista de um editor

A edição em Portugal compensa, ou é um esforço vão, ou obriga a mentir-se a si mesmo?

Compensou a Ulisses ter ido a Tróia, ter sido cativo dos Ciclopes, amarrar-se a um mastro para escutar a voz Teresa Salgueiro das sereias? Eis a razão pela qual ando nisto, voltar de consciência tranquila a reencontrar Penélope todas as noites e ganhar um dia a improvável imortalidade. É o que se leva da caverna editorial, que dividendos, viste-os – em 14 anos, zerinho, zero euros!
Se pudesse escolher, teria preferido ser um editor no estrangeiro, ou continuaria a sê-lo entre nós?
Mal deixei de gatinhar, tinha eu cinco aninhos, deslarguei-me deste jardim à beira Atlântico plantado. Quis ser um Europeu errante em África. Voltei, com o rabo entre as pernas e um queixume brando. Seria ingrato negar agora, como Pedro três vezes a Cristo, a Pátria que me voltou a abrir os braços. Até porque houve um erro em que nunca laborei: nunca desertei da língua portuguesa em que edito. Essa língua é o fio de Teseu, e um bocadinho de tesão, que me leva por este borgesiano labirinto de falas, escritas, livros, babélicas estantes, unindo o miúdo que gatinhava a esta terceira idade em que agora moro. Não saberia estar de pé em nenhuma outra língua. 
E o que se faz é sobretudo apostar no que garantido, ou é possível dar a conhecer obras novas?

Mais do que apostar, quis inventar. No melhorzinho que porventura tenha feito estão alguns livros que inventei. Inventar um livro para Agustina juntando-a a Paula Rego, inventar com a Dona Mécia um livro de um Sena de escárnio e mal dizer involuntariamente ilustrado pelo próprio, atribuir a Pessoa o seu As Flores do Mal, inventar nos Livros Amarelos a rara, ou talvez única, colecção comparativa do mundo. E se os deuses deixarem que eu tenha descoberto um poeta – peço-vos que leiam Eugénia de Vasconcellos e logo João Moita – um filósofo, um romancista, aí está o que me poria de debruçado Narciso sobre o primeiro charco de água num primaveril dia de chuva. 

Considera-se um escritor que, paralelamente edita, ou um editor que, por vezes, também se quer dedicar à escrita?

Eu desconsidero-me. Já se viu pelas respostas anteriores que deambulo como gado transumante pela pastagem editorial. A escrita é uma leveza nefelibata, que um livro de devoção, tantas vezes lido em voz alta pela minha mãe, Alice Amália, ainda hoje me inspira. Eu sou um caso perdido de derrame melodramático, empolgam-me histórias de mártires, de barcos arrebatados pelas gigantescas ondas de homéricas tempestades, de náufragos seminus em ilhas tropicais. E que saudades tenho do herói que nos dias de adolescência prometia a mim mesmo ser. Já se vê, que sou um caso óbvio de incumprimento.
O que o levou a tornar-se editor? Trace-nos em algumas palavras a aventura que terá sido a génese da Guerra e Paz.

Aprendi a fazer livros com João Bénard da Costa, na Cinemateca. Quando deixei a SIC, num acordo que os deuses inspiraram a Francisco Pinto Balsemão, decidi que já tinha uma linda idade para fazer da minha tão proveitosa vida o que bem entendesse. Juntei um mais um e deu dois, eu e a Guerra e Paz. Cá estamos. Foi vaidade, presunção e muita amizade. Os meus primeiros sócios foram os meus amigos de infância.
Há um romance (O Franco-Atirador Paciente, de Arturo Pérez-Reverte) em que o autor o transforma numa personagem. Como se sente ao ver-se representado nas páginas de um livro? Essa personagem revela alguma coisa do homem Manuel Fonseca e da sua circunstância, ou é uma mentira? E se alguém se propusesse passar a obra para cinema, aceitaria fazer o papel?

Quem é esse editor de que Arturo Pérez- Reverte fala? “O” editor, em sentido abstracto? Eu mesmo, Manuel, o que muito me honraria por não conhecer Arturo, nem ele me conhecer a mim, o que suporia uma maravilhosa intriga, na qual Trump e Putin teriam de estar certamente envolvidos? Seja como for, eu, como actor, só entrarei num filme realizado pela vossa colaboradora Joana Pontes, a única a quem confiaria o supino talento dramatúrgico que ainda ninguém descobriu em mim.
O que tem a Guerra e Paz na manga?

Gostava de anunciar um romance de António Lobo Antunes, mas a editora dele era capaz de levar a mal. Anuncio a Fotobiografia de Jorge de Sena. E, muitíssimo a sério, anuncio um livro político e filosófico essencial: vou publicar um livro de um sinólogo, Porquê a Europa, Reflexões de um Sinólogo, que tem tudo que ver com o mundo em que um vírus nos fez entrar: se o mundo que aí vem vai ser liderado pela China, o que é verdadeiramente a China? Que violência intestina é a sua, que feridas e guerras arrasta do passado? É um livro a que fiquei preso como a uma inescapável tragédia ficaria também.

10 de junho de 2020

Sim, sou marxista

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Gosto eu bem mais de Karl Marx do que todos os marxistas juntos. Anafado, cabelos desalinhados, que o faziam parecer um urso, vejam-no com as filhas, num picnic no Hyde Park: teriam comido ovos verdes e bolinhos de bacalhau se a condessa Jenny, sua mulher, ou Helene, a governanta, soubessem fazer ovos verdes ou bolinhos de bacalhau. Comeram, riem-se, correm pela relva até que Marx desafia as filhas a atacarem um castanheiro e limparem-no das maduras castanhas que o enfeitam. Atiram-lhe pedras e Marx um pau apanhado no chão. Roda-o com o braço direito e lança-o com uma força e um grito de Tarzan. Ri-se de possesso, as filhas com ele. Pagará o desabrido excesso: durante uma semana, de braço ao peito e pachos de água quente, não conseguirá escrever uma linha de “O Capital” ou de uma qualquer “Crítica à Economia Política”. Abençoado castanheiro.

Ouçam-no trovejar nas reuniões políticas em que se reúne com ajudantes de alfaiates, tipógrafos, encadernadores e tanoeiros numa miserável sala de Greek Street, no Soho, em Londres. Troveja Marx e a mim parece-me ouvir a combinação tonitruante dos meus amigos Pedro Bidarra e Henrique Monteiro, nas jantaradas do blog colectivo Escrever É Triste, uma espécie de Internacional literário-gastronómica com que tentamos imitar a Primeira Internacional, a que Marx deu gritos, gás e prosa.

E já volto às filhas. Marx, que devia na mercearia, perseguido por credores, incapaz de pagar a renda de casa, prendava as meninas, as suas Jenny, nome da mulher que deu a todas as filhas, com aulas de piano e de canto, desenho e línguas. Tê-las ido levado a debutar ao Baile da Ópera de Viena se lá vivesse e não na capitalista Londres que, magnânima, o recolheu, dando-lhe a liberdade que Berlim, Paris e Bruxelas lhe recusaram. Não conheço ninguém com tão apurado sentido de classe como Marx, nem em Cascais, e muito menos o meu amigo Pedro Norton, que é bem lá de casa, mas desenhou no peito, garrafais, as letras SLB, o que o autoriza, se for de tronco nu, a entrar na Festa do Avante, a única festa de debutantes que terá lugar em 2020.

Querem contradições? A casa das contradições é o peito de Marx: apreciem-lhe o gosto pelas boas garrafas de vinho do Porto que lhe mandava o seu amigo Engels; escutem esse estoirar a massa assim que um dedo dele aflora uma libra, que Engels lhe expedisse; espreitem o entalanço em que meteu Engels, obrigando-o a reconhecer a paternidade do filho que ele, Marx, fizera à governanta. Ora Engels, filho de um industrial, vivia com Mary Burns, operária, de incansável ardência irlandesa e ruiva – esta parte, sou eu a sonhar – e vivia em afrontosa maridança, o que fazia Marx e a sua condessa Jenny revirarem os olhinhos. Pior, juntaram a irmã de Mary à festa, cobrindo aquela bela luta de classes com o véu francês que dá pelo nome de ménage à trois. Quando Mary morreu, de repente, aos 40 anos, Marx despachou o assunto com uma nota breve e descuidada, deixando o preconceito prevalecer sobre a gratidão que devia a Engels. Arrependeu-se e pediu-lhe perdão, depois.

E eis a fraqueza em que mais me identifico com Marx, quase meu kamba, se nos tivéssemos conhecido em Luanda: ele e eu queríamos enriquecer com dinheiro rápido e fácil. Em duas cartas, Marx jura ter jogado na Bolsa, em “fundos americanos e, em especial, em acções inglesas que estão a crescer como cogumelos este ano” tendo arrecadado 400 libras. A estes actos de guerra chama Marx “subtrair dinheiro ao inimigo”. É a minha luta marxista diária.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

9 de junho de 2020

Precisamos de dizê-lo



Há momentos assim, em que precisamos de dizê-lo. Mesmo que não tenhamos a quem dizê-lo. Ou que não saibamos dizê-lo ou como dizê-lo. E mesmo que aquele ou aquela a quem queremos dizê-lo não mereça ouvi-lo. Como Lisa (Joan Fontaine) o disse ao ingrato Stefan (Louis Jourdan) na mais bela carta de amor que o cinema alguma vez escreveu, pela mão daquela “desconhecida” de Max Ophuls. E precisamos de dizê-lo ainda que tenham já tenham passado cinquenta e três anos, sete meses e onze dias desde o primeiro momento em que precisámos de dizê-lo sem o conseguir, como o fiel Florentino Ariza o disse à eterna Fermina Daza naquele amor em tempos de cólera que Garcia Marquez fez resistir a toda uma vida feita também, também, de desamores, de muitos desamores. E ainda que não saibamos se é amor aquilo que queremos que o seja, aquilo de nos deixarmos enamorar, quando já ninguém usa a palavra enamorar, por uma simples imagem refletida numa janela. Numa janela de um comboio, naquele amor “sem apelidos e com nomes falsos” inventado por Jacinto Lucas Pires em “Sombra e Luz”. Ou numa janela de um computador, por uma imagem com aura de obra de arte, uma imagem tão bela que a nossa imaginação transforma na promessa de eternidade que o amor mais perfeito e indestrutível, o amor pela ideia de amor, comporta. Precisamos de o dizer sem saber porquê, apenas porque sim, e ainda que nos sintamos mais desconhecidos do que Lisa o era para Stefan.

E precisamos de o dizer como Cazuza e Bebel o disseram. Sem rodeios, de uma forma tão infantil e lamechas que sintamos todo o peso do ridículo de que falava Pessoa a abater-se sobre as nossas palavras. Só assim saberemos que dissemos exatamente aquilo que precisávamos de dizer.

7 de junho de 2020

Finais de janeiro

cemitério delle Fontanelle ,Napoli



Sempre que vou a um funeral penso como será o meu. Nunca falha. Seja de quem for.
Por muito que me tente concentrar em quem partiu, lá volto ao relambório do costume: basílica cheia ou ermida discreta? Caixão de mogno ou caixão de pinho? Serão partilhados testemunhos, mais ou menos verdadeiros? Só espero que não me exibam em fotografia, que sou muito melhor ao vivo. Banda sonora de fazer chorar um penedo ou aquele silêncio que incomoda? Virão amigos, virão inimigos? Virão desilustres conhecidos e ilustres desconhecidos? Virão de perto, virão de fora? Trocarão cromos, anedotas e insólitos? Era um profissional de mão cheia, uma alma como já existe, um homem com H grande. Era o vizinho que não pagava o condomínio, o animal que não sabia reciclar, o cretino que estacionava em segunda fila, trancando os matinais. E quem era afinal mais amigo, quem conhecia há mais tempo, quem era o companheiro de copos e bola, quem era o fiel depósito das suas confidências inconfessáveis? Quem vencerá este concurso, ganhando lugar debaixo do canto do meu caixão e levando para casa uma nódoa negra no ombro? E no final, haverá sol e poeira ou cairá um dilúvio de fim de mundo, deixando tudo limpinho, como eu gosto?
Na realidade, venha quem vier, estarão todos a pensar no seu próprio funeral. Cada um virado para o seu umbigo, empurrando o tempo para longe, quase desejando regressar ao útero materno. Sob o olhar terno da Nossa Senhora de serviço, baixando os olhos à solidão do Cristo ao frio na sua cruz e com um pavor de morte de quem nos virá buscar.
Gosto deste cheiro a incenso, a fato de domingo e à laca dos cabelos armados das senhoras. Traz-me de volta aos pés o frio do chão de pedra, temperado pela madeira que nos recebe os joelhos.  E aquela gota dura de cera no banco que a nossa unha não consegue largar, aquela comichão urgente. O hálito que deixa a hóstia. E o estalo daquela bengala que escorrega sempre, assustando os fiéis, castigando o silêncio, interrompendo a oração. E as janelas coloridas e o teto lá tão alto.
Não lembrava de ser tão alto. Estou deitado. Rodeado de flores. Só vejo os meus sapatos, os bons e com um laço tão bem dado.
Ah, já percebi.

Já não preciso imaginar como vai ser. Sejam bem-vindos ao meu funeral! E se me permitem, deixo, e de borla, um conselho: não vale a pena pensarem no vosso. 



imagem Ana Marchand
texto Ana Monjardino

6 de junho de 2020

Decide-te, Giovanni Drogo



“Se não fosse mais do que um homem comum a quem, por direito, cabe apenas um destino medíocre?”

Dino Buzzati, Deserto dos Tártaros
 

Se há um livro que o confinamento me fez voltar a visitar, é “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati. “O Deserto dos Tártaros”, desde que foi publicado em 1940, terá contribuído, ou sido o catalisador ou o assomo de coragem que faltava, para ruturas, nalguns casos revoluções, nas vidas de muitos do que o leram, e eu não fui exceção. Depois de o lermos, corremos mesmo o risco – e é um risco que vale a pena correr – de mudar de vida, e até de mudar radicalmente de vida. A (falsa) narrativa aparece-nos nua e crua, aparentemente sem artifícios, num despojamento e simplicidade que desarmam. Deixamo-nos levar, despreocupadamente, ao ritmo de uma vida que até nos é levemente familiar, à espera do que aí vem. E esperamos. Esperamos. Esperamos como o tenente Giovanni Drogo espera pelo inimigo na fortaleza Bastiani onde vai permanecendo. À espera que se passe qualquer coisa. Que venha o inimigo ou o que quer que justifique a continuação da leitura. Mas as páginas vão ficando para trás e nada acontece. Só o deserto bem à frente dos olhos do tenente Drogo. E acabamos a culpar Buzzati pelo logro. O mesmo, aliás, que Buzzati voltou a ensaiar num dos contos (“Quando Se Faz Sombra”) do seu fabuloso “Os Sete Mensageiros”, publicado dois anos depois: o da inquietante criança das perguntas incómodas que o protagonista, um contabilista, encontra no seu sótão, e que vem a descobrir ser ele próprio com menos trinta e cinco anos de idade. Tal como o contabilista é interpelado, também o leitor de Buzzati o é pela criança que foi, e que continua a habitar o sótão das suas expectativas frustradas. Com Buzzati, damos por nós a vestir a pele da morte para assistirmos à inexorável passagem do tempo e ao efeito que esta produz sobre a vida – sendo que a morte, nele, aparece sempre como contraponto da mesquinhez e insignificância da vida, como libertação e redenção de uma vida onde há muito se morreu sem se saber.

Mas se, com “O Deserto dos Tártaros”, Buzzati tem o descaramento de confrontar o leitor com o deserto da sua existência, agora, em plena pandemia que paralisou ou desacelerou o ritmo em todas as latitudes, é o mundo inteiro que interpela. Se antes tinha o hábito de aparecer ciclicamente, a mim e a muitos dos seus leitores, quando estava prestes a entrar no esquecimento (e que irritantes eram esses momentos, perdi a conta aos dias que as suas aparições estragaram, sempre quando estava mais tranquilo, mais perto de me sentir em paz), agora veio para ficar, em pose de aberta confrontação, já não com o homem pequeno, mas com a humanidade, com todo o género humano, exigindo-lhe a rutura, quiçá a revolução, a que, voluntariamente, os seus leitores, à minúscula escala individual de cada um, se sujeitaram em determinados momentos das respetivas vidas depois de conheceram o tenente Giovanni Drogo.               
 
Agora, é todo o planeta que aguarda pela decisão do tenente Drogo. É o Homem que, paralisado pela falta de coragem, incarna o drama do tenente Drogo. À sua frente, um deserto em vias de se transformar num abismo que só a rutura pode salvar. O mundo até parou para te ajudar a decidir, Giovanni. Não esperes mais por Godot.

A bélica, delinquente e sagrada sala de cinema

Escrevi, o ano passado, este texto para a revista Granta, a pedido de Pedro Mexia. Foi com uma alegria infantil que voltei às salas de cinema da minha infância e adolescência. Agora, mais de meio-ano depois, e acabada de publicar uma nova Granta, trago o meu mini-ensaio para o Escrever é Triste. É um texto longo, aviso – é preciso uma chávena de paciência e uma colherinha de vontade para se ler até ao fim.
Miramar
Cinema Miramar


A bélica, delinquente e sagrada sala de cinema
Manuel S. Fonseca

Padre, polícia, sargento. Sargento, polícia, padre. Foi esta a litania que encafuou a minha vida na bélica, delinquente e sagrada sala de cinema.

Explico-me louvando-me na inescapável biografia. Até aos cinco anos de idade, tanto como a electricidade, a imagem era-me estranha, sendo ambas, electricidade e imagem, práticas ou técnicas que pressentia inumanas. O meu primeiro choque com esse bestiário civilizacional foi em Lisboa, numa qualquer agência que preparava, em 1959, as famílias lusíadas para a colonização do ardente império onde António de Oliveira Salazar nunca pôs a mansa pantufa. A mão camponesa de minha mãe, com o seu doce aroma a bravo esmolfe, levantou-me a lavada meia manga da camisa para que um enfermeiro me agraciasse com a tripla vacina tropical – febre-amarela, varíola, cólera – e, ia eu começar a fungar, apagam-se as luzes e vi, pela primeira vez, a imagem.

Irrompem da parede branca uns luminosos pretinhos, os primeiros pretinhos da minha vida, ranhosamente sorridentes, seminus. Corriam na parede de luz, saltavam, fugiam às mães, sem nunca saírem do rectângulo que fulgurava no escuro da sala. Eu já tinha visto um lobo, duas raposas, já andara de burro e mula, vira o vertiginoso Inverno feito água em fúria na curva do Coa que fica mais perto de Vale de Madeira, Pinhel, mas só agora via, por fim, a unicórnia imagem e o esplendor explosivo, porventura mentiroso ou pelo menos fingido, dessa luz branca aureolada a sombras, coisa que por eu não saber dizer então, logo ali me cegou e engasgou, em ledo engano me embalando para sempre. Esta era a imagem que em verdade, em verdade me disse: abre os olhos e vê.

Poupo os leitores à viagem transatlântica no paquete Vera Cruz até Luanda. Os meus pais eram muito ricos, não tendo, como as pessoas verdadeiramente ricas, mesmo dinheiro nenhum. Fui, por isso, morar num musseque, o mais livre, acre e lendário dos musseques, o Sambizanga, um bom meio quilómetro para o interior, a contar da Casa Branca, território do tamanho de Dante, se é que eu não queria mesmo dizer, da Divina Comédia, tão labirínticos eram os seus círculos concêntricos.

Ainda não voltara a ver a imagem, e veio o 4 de Fevereiro de 1961. Camuflados nas silenciosas barbas da noite, nacionalistas angolanos assaltaram prisões, o forte colonial. Os tiros correram pela madrugada como boémios desgarrados. Eu ainda não tinha ouvidos para ouvir e não ouvi esses independentes tiros da rebelião, mas lembro-me, apesar de ser a céu aberto em plena rua, e lembro-me como de mais nenhuma imagem, desse primeiro domingo a seguir ao 4 de Fevereiro. Foi o meu encontro com a angustiante vida real. Corriam outra vez os pretinhos e perseguiam-nos bandos de famílias brancas – e outros negros e cabo-verdianos, diga-se –, atacando-os a golpes de paus e pedras, o lombo pesado do ramo da palmeira, e não havia essa imóvel parede de aureoladas sombras e mecânica luz para onde os meus desvalidos e sacrificiais anti-heróis pudessem fugir e fingir ser mentira a dor e o sangue que deveras sentiam. Em verdade, em verdade vos digo, esta era a imagem que qualquer um veria mesmo de olhos fechados e só quem não tem olhos para ver atirará a primeira pedra.

O padre


shane
Shane


Tinha eu, portanto, sete anos e duas imagens, a imagem explicativa de Lisboa e a imagem implicativa de Luanda. Ambas eram verosímeis, qual delas a verdadeira? De uma e de outra salvou-me o padre anti-hitchcockiano.

O episódio de Sir Alfred é conhecido. O carro que lhe levava o peso ofegante por uma estrada nas montanhas suíças passou por um cura e um rapazinho, a mão do padre no ombro do moço. Ecoou pelas colinas a católica suspeição do grito de Hitchcock: “Run for your life, boy.”

Já o meu padre nunca quis saber do meu ombro, só dos meus olhos. De hábito franciscano, a chicote, que era o cordão do piedoso burel marron, punha em ordem a vagabundosa fila de miúdos negros e esparsos infiltrados brancos a que eu me juntava, impaciente por entrar numa suposta caverna e ver o mistério que se ia oficiar. Íamos ver o rapaz, íamos ver o artista.

Paguei o quê? Um angolar? Era uma sala de bancos corridos, sem costas, por serem costas os joelhos dos da fila de trás. Janelas altas, depressa tapadas por umas corridas cortinas negras. Preso à parede do fundo, um esticadíssimo lençol. Fez-se um escuro de alcatrão e uma violenta e luminosa realidade entrou na transparência da minha vida e dos meus sete anos. A sala escura encheu-se de cores americanas, iguaizinhas às que em Marrocos levaram Nicolas de Staël à pintura e depois ao leniente suicídio. As cores americanas vinham a cavalo, verdes e magentas num bosque ou ribeiro, o amarelo-torrado de um fero, seco e estéril monte, o luzidio negro de um colt a cuspir vermelho e som. Era um western e não era coisíssima nenhuma que não fosse o paraíso, ou céu, como então eu chamava ao paraíso.

Esta já não era a imagem explicativa de Lisboa, pequeno rectângulo a preto e branco, pedagógico, transparente e sem esquinas; esta também não era a imagem real, fixa, e por isso assustadora, dos vizinhos perseguidos e perseguidores do 4 de Fevereiro, do inapagável sangue que fica na casca do ramo de palmeira. Esta nova imagem era a imagem de um conluio americano com os meus padres capuchinhos italianos e redimia, em glória e artifício, a imagem explicativa e a imagem implicativa. Por aquela imagem, pela imagem do cinema sem nome da Missão de São Domingos podia fugir-se, e já corrijo, podia subir-se à montanha das bem-aventuranças. Cinema de cavalos, saloons, espadachins, trirremes, ben-hures e espártacos, beijos roubados, céus em azul cião.

Ia dizer que a sala do cinema sem nome tinha, no seu negrume capuchinho, a cara tisnada da inocência, mas minto. Tinha era o corpo inquieto e a voz aguda e vibrante da inocência. A inocência era o corpo em labaredas de uns cem candengues, cem miúdos, que lambiam o esticadíssimo lençol branco, numa apoplexia de bom-dia à felicidade, que nunca mais voltarei a soletrar assim. Gritava-se, apostrofava-se, ululava-se, aplaudia-se. Ah, a insustentável e cósmica dilatação do esticadíssimo lençol, que ficava muito maior do que mundo e vida! Sim, a ameaçadora tela engolia-nos e nós, para avisar o artista, atirávamos-lhe tudo o que tínhamos à mão, por fim os sapatos. Esta foi a imagem que o meu padre me deu, a do cinema onde entrávamos calçados e, cheios de um amor franciscano, saíamos descalços.

O polícia
La violetera
La Violetera

À Sétima Esquadra da PSP de Luanda acariciava-a a brisa mítica que os westerns emprestam a taxa de juros zero ao Sétimo de Cavalaria. Alvo dos nacionalistas rebeldes do 4 de Fevereiro, a esquadra ocupava uma posição estratégica no enquadramento do fim da cidade do asfalto com os musseques a sudoeste e a estrada de Catete, via de saída de Luanda para o interior de Angola. A cruel mistura de lenda, heroísmo e estratégia fê-la crescer, convertendo-a num forte a que, como condecoração, se deu um cinema. Havia, para os polícias e famílias, uma boa sala de cinema, a céu aberto, na Sétima Esquadra. Chefes e subchefes no balcão, agentes na plateia.

Sem que Salazar soubesse, confirmando assim o que os nossos pais diziam da putativa corrupção dos ministros dele, nós, os miúdos do bairro, furávamos o regime corporativo e vínhamos, mini-foras-de-lei e em incipiente delinquência nos intestinos da lei e ordem, ver as matinés de Marisol e Joselito, La Violetera de Sarita Montiel, Cantinflas e outras obscenas amenidades para maiores de 6 anos. Como depois, quando crescemos para a idade dos heróis de Stand by me (esses macaquinhos de imitação do que, muito antes, os meus amigos e eu vivemos), viemos à procura de outra imagem, a dos filmes draculianos e exorcizantes, de que saíamos aterrorizados, dez minutos até casa numa nocturna caminhada tropicalmente gelada por cada fantasma cintilante, por cada reflexo bizarro, pelo assobio da viração do vento nas árvores, pela fugidia sombra num quintal, mil demónios e cazumbis a morderem-nos o cáqui dos calções e as nossas pernas lisinhas, um medo bruxo, de caixões e nosferatu, a bombear-nos o coração.

Eis a dupla imagem que, depois do meu padre, o meu polícia me deu. Primeiro, a imagem da frivolidade, da alimentar, desopilante e formativa frivolidade. Por causa das prendadas filhas, as mais bem vestidinhas dos chefes e subchefes, sereias mudinhas que nos obrigavam a virar o pescoço volúvel e dúctil para o balcão, o meu polícia fez prevalecer a sala de cinema sobre o filme, sofrida, amarga e mesquinha traição, que os meus amigos e eu fingíamos não ver ou sentir e escondíamos uns dos outros.

O meu polícia deu-me, depois, a experiência do oculto e do sobrenatural e desse foguetão afectivo que a acompanha, o sentimento apaixonante chamado medo. Saí da Sétima Esquadra armado, dois coldres à ilharga, num a deliciosa frivolidade, no outro, o nocturno estrado do medo.

O sargento
rain people
Chove no meu Coração
Era um quartel. Do outro lado da Estrada de Catete para quem vinha da Vila Alice, passado o Colégio dos Maristas e o Seminário, na estrada de areia dos quartéis, o RIL, Regimento de Infantaria de Luanda, tinha um cinema a que o nosso pós-infantil e desgovernado ideal de heroísmo militar chamava, com desdém, o cinema dos sargentos. Esplanada ao ar livre, ecrã gigante, uma plateia férrea e geometricamente hierarquizada em oficiais, sargentos e praças, foi nesse cinema, com o Cruzeiro do Sul por testemunha, que descobri a mulher adulta, casada e autónoma.

E tenho antes de dizer que, sentado na fila da frente, a minha mão quase a tocar a locomotiva que Buster Keaton conduzia, já lá descobrira o silencioso segundo riso, que, pelas alminhas, não deve ser confundido com o reactivo anti-riso contemporâneo, a que talvez o impiedoso Nietzsche chamasse humor de escravo. Keaton apareceu-me num fim de tarde de domingo, o filme chamava-se The General, mas a tradução portuguesa, Pamplinas Maquinista, mais reforçava a festiva euforia do que hoje seria o quim barreirismo da matinée infantil. Andava já de adolescência inquieta e começava a fazer fine bouche (se assim posso dizer) à gargalhada de boca, rapidinha e esquecível. Ora, cada gag de Keaton era depois da gargalhada que se agarrava ao palato. Peço desculpa e a mais benigna compreensão do leitor para o que vou dizer: Keaton traficava uma imagem que, sendo já de boa boca, tinha um fim de garganta funda, como se diz, entendamo-nos, que só os vinhos de Bordeaux têm. O humor dele era, descendo em espiral, riso depois do riso, segundo riso, um riso de peito e alma.

E já salto do comboio de Keaton para voltar à mulher. A mulher casada deu-ma a descobrir o meu sargento, mostrando-me Shirley Knight, ao volante de uma station, a deixar a sua casa numa plácida smalltown que, tivesse Angola auto-estradas, podia ser de Angola. Eu vi-a, de uma das minhas noites de cacimbo dos dezassete anos, saía ela de casa numa manhã de Inverno. A chuva pequenina, cambutinha, prima do cacimbo angolano, espalhava poças pelas ruas de Chattanooga, no Tennessee, onde Francis Ford Coppola filmou esta mulher grávida que, sem destino, deixa mansamente o marido e se mete à interminável estrada.

A luz, meu Deus e meus amigos! Tão fina e filtrada a luz, luz do sudeste americano a arrancar brilhos e reflexos ao asfalto, uma renda de humidade, a imarescível humidade que a insatisfeita melancolia, se autêntica, não ousa dispensar. Shirley Knight encosta e acolhe a essa melancolia dois homens, James Caan e Robert Duvall. E Shirley devia ter-me acolhido a mim: eles não a amaram e incompreenderam mais do que eu.

Tudo nessa Shirley Knight é gentil, salvo o que é inexplicável ou insondável, que é praticamente tudo. As suas indizíveis razões, a sua inegociável solidão, a sua seguríssima incerteza comoveram a minha adolescência e eu, no cinema do meu sargento, que já me tinha dado a imagem do desumilhante e nietzschiano segundo riso, tomei de assalto a imagem independente e impossuível da mulher. Numa esplanada de ancas oferecidas à lua, ao cacimbo e às estrelas, o mouco rumor da guerra colonial que a plateia de soldados insinuava, conheci e entrou-me na pele a imagem da grave e errática liberdade da mulher casada. Quero que conste no meu cadastro: The Rain People chamava-se o filme de que Chove no Meu Coração foi o piedoso título português.

A sala e o telhado
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The Searchers
Com excepção do cinema dos padres capuchinhos, na Missão de São Domingos, até aos dezassete anos, mais de 90% dos filmes que vi, vi-os com os olhos a fugir para o céu. Muitos na melhor das minhas salas, o cinema Miramar, o mais belo do mundo, levantado, como John Wayne levanta Natalie Wood em The Searchers, sobre as barrocas de Luanda. O Miramar, logo depois do seu jardim com as weliwítschias de longos braços estendidos atrás do pasmoso ecrã, caía a pique sobre o mar, tendo em fundo a baía, guindastes e os grandes navios conradianos do porto de Luanda, as refulgentes locomotivas do caminho-de-ferro da linha de Malange. Foi no meio dessa barriga de vida que vi, quinze anos, ainda mal o meu polegar do pé direito roçava a cinefilia, o Pierrot le Fou, de Jean-Luc, esse torcionário Godard, que tão depressa me salva de afogamentos, como me embrulha a cabeça numa toalha, enfiando-ma na água de uma banheira.

Sei, contaram-me, da teoria uterina da sala de cinema. O útero dos meus filmes tinha a escuridão da noite original, primeva, tinha nuvens e ventos, estrelas e lua, às vezes o lampejo líquido, um clair de mar. E que não se tenha o impudor de confundir este meu mergulho, de prazer visceral, com a deriva tubo de escape do drive-in. Vi filmes cercado de cosmos por todo o lado, menos por um: o istmo que me aproximava umbilicalmente da clássica sala de cinema era a plateia cheia. Nas minhas esplanadas, a tropical céu aberto, o meu pequeno eu sentava-se lado a lado, à frente e atrás, com uma alienada massa de zombies enfeitiçados, olhos, esqueleto e almas entregues à mais genuína, total e torrencial crença. O meu espanto de alma, o meu pequenino fervilhar do baixo-ventre, a ânsia do meu coração pateta, o êmbolo irrespirável que me devastava os pulmões nunca estiveram sozinhos. Juntos, como na gruta de Lascaux, éramos uma plateia farfalhante, sentados em cima do mesmo medo, do mesmo desejo, da mesma alegria. Estremecíamos, sufocávamos, ríamos, chorávamos pré-historicamente em conjunto. Repare-se, estávamos ali sentados, ligeira inclinação para o ecrã, posição fetal, em pleno parto, nascendo de novo a 24 imagens por segundo. E connosco, novos adões, novas evas, renascia em nós, por nós e para nós, o raio da nua humanidade inteira, nova Gaia, novo Eros, saídos de um escuro e espesso caos.

Tremo só de pensar no rasto de pecado da minha adolescência fílmica. E talvez deva antes dizer, da minha adolescente obscenidade fílmica. Elizabeth Taylor, Gina Lollobrigida, Stella Stevens, Natalie Wood, Brigitte Bardot, Virna Lisi, Ursulla Andress, Raquel Welch, Sophia Loren, Barbarella, ou Jane Fonda sei lá, Julie Christie, com os seus três metros se estivessem de pé, dez metros se bem deitadas, vinham espetar-se-me directamente na veia, num consentimento fulvo e mamífero. O cinema consente.

Hipertrofia da vida, o cinema oferece rostos, ramagem de olhos, nariz e lábios, franja de sexo, como se fossem áscuas de ouro. O cinema esfaqueia, estrangula, assassina e logo, fade out, fade in, a nova imagem, a imagem seguinte tudo lava e redime. Bigger than life, já me juraram e não me mentiram. E é por isso que o cinema hipersensibiliza. Massaja, espanca de luz e bang, bang as nossas glândulas estéticas, arrastando-as para inconfessáveis devaneios psíquicos. Se a este mistério, se a este sombrio ritual se pode chamar uma educação, essa foi a minha educação. Nos anos 60, em Luanda, África Ocidental Portuguesa, futura República de Angola.

Confesso. Eu sou do mais escuro dos séculos, o século XX. Sou do século em que o amor irrompia como um jacto de luz sem beliscar a cósmica escuridão. Jamais desmentiria quem a isto chamasse cinema.
Miramar
Cunema Miramar

5 de junho de 2020

Os dentes de Bakunine


O russo Mikhail Aleksandrovitch Bakunine ainda tinha dentes quando se encontrou, em Paris, com o alemão Karl Marx. Faço gosto em lembrar que a revolução não estava então de quarentena: era globalizante e viajava que se fartava. Reescreva-se a história: não foi o capitalismo, foi a revolução, as internacionais socialistas, com os seus eslavos, alemães, franceses, Garibaldi e os primos dele, que inventaram a globalização. E, digo eu, fizeram-no na peugada dos nossos navegadores, como escreve en passant Marx, no Manifesto Comunista, nesse tempo em que, mesmo Marx, podia chamar “descobertas” às navegações dos desdentados lusitanos.

Já se viu que, com a minha técnica de crochet, não dou ponto sem nó: eis o que une o anarquista Bakunine aos descobrimentos, o escorbuto. Em Paris, Bakunine bem podia ter beijado Marx, ainda tinha os dentes todos. Bastaria a Bakunine inclinar-se um bocadinho dos seus quase dois metros para o metro e setenta de Marx. O colossal Bakunine, no ano de 1848 em que as bocas das nações europeias regurgitavam revoluções, arrastou o imenso armário que era o seu corpo pelas capitais em que houvesse barricadas, fogo, sangue e gritos. Diga-se, os furúnculos de Marx – chegou a ter três em simultânea impiedade, um na virilha, outro na omoplata, e o terceiro na inquieta nádega – não o ajudaram, forçando-o a uma vida doméstica preenchida por excitantes fugas aos merceeiros, alfaiates e outros credores.

Mas vejam, as execráveis autocracias europeias, o nefasto suíço, a insidiosa França, o espúrio belga, a torpe Alemanha, uniram-se para encostar Bakunine à parede e condenam-o à morte. Ora, o Czar da imensa e pungente Rússia reclama para si aquele pedaço de homem. Quere-o em prisão perpétua.

Antes já o Czar expropriara Bakunine do seu belo património. Como qualquer grande revolucionário, Bakunine era rico e aristocrata, o que os espanhóis chamariam um señorito. Marx era de família burguesa e casou com uma condessa, a estóica Jenny von Westphalen. Mas se continuo nesta deriva, ainda acabo a dizer que Álvaro Cunhal ou esse grande educador que foi Arnaldo de Matos eram operários metalúrgicos do Barreiro…

O Czar enfiou o aristocrata Bakunine numa minúscula cela da Fortaleza de São Pedro e São Paulo: três anos para a sossega, a que logo se somaram mais quatro nas caves sórdidas do castelo de Shlisselburg. Não sei se a dieta que deram a Bakunine era ou não vegan, mas num sofrimento atroz caíram-lhe todos os dentes. Chegou a pedir ao irmão veneno para se matar. Diz-se que resistiu rememorando dia a dia o mito de Prometeu, esse infeliz Titã que Zeus amarrou a uma rocha, todos os dias uma águia lhe vindo debicar o fígado que se regenerava durante a noite.

Mas eis que morto um Czar, logo outro nasce e o novo Czar o manda para a Sibéria. Os governadores, administradores, não havia um que não fosse primo de Bakunine, no que me atrevo a imaginar uma espécie de tributo avant la lettre à nossa burguesia em tempos de salazarismo. Facilitaram o primo, como até a Pide, em certos casos primos, facilitava. E Bakunine convence o capitão de um libertador barco americano, esconde-se no porão e viaja, primeiro para o Japão, depois para San Francisco, aonde chega um século antes do libertário movimento hippie.

Bakunine foi gigantesco, expansivo, arrebatador, inimigo radical de toda a forma de autoridade, a do estado, a de Deus, e a que Marx vendia sob o nome de ditadura do proletariado, como se fosse um caramelo de Badajoz. Bakunine sabia o mal que isso faz aos dentes.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

3 de junho de 2020

Minecraft Solidário



O Máximo, o meu sobrinho mais novo, fez anos há poucos dias. Na festa de aniversário, em espaço aberto, com distanciamento e convidados em número limitado, ouviu a mãe, minha irmã, contar que tinham pirateado a conta de Minecraft do filho de Nuno Markl. Achou uma grande maldade, «oh! tanto trabalho perdido». E num instantinho, fez os pallbearers em Minecraft, para que a mãe enviasse a Nuno Markl com a seguinte mensagem para o seu filho: 
- Não fiques triste, faz como no meme, enterra o que está perdido e começa de novo.
Confesso, tenho mesmo qualquer coisa a aprender com este meu sobrinho...


1 de junho de 2020

Aldeia da Roupa Branca


Andava para ali meio perdida pelo Instagram, mas ao revê-la lembrei-me do nosso Manuel S. Fonseca (eu acho que o S é de Salvador!) e do que seria se nos contasse uma daquelas histórias que nem a própria raparinha da franja saberia.

Ó Mestre! Anda daí lavar roupa suja!

Aldeia da Roupa Branca, Carcavelos. Portugal, 2020.






Esperança


para TTS

31 de maio de 2020

ficheiros inacessiveis



em tudo há uma fissura.
é por onde entra a luz






imagem Ana Marchand
palavras de Leonard Cohen

27 de maio de 2020

A Nostalgia do Esterco


E outros pensamentos enquanto via o “The Deuce”


“Vocês, cabrões, divertiram-se tanto que a culpa do mundo estar como está é da vossa geração.”
Ela se calhar tem razão. Mas que raio havíamos de fazer, depois de anos de miséria, ou frugalidade na melhor das hipóteses, de memórias de guerras e holocaustos, de décadas de hipócritas morais que sancionavam vícios privados ao lado de beatas virtudes públicas?
O que havíamos de fazer quando, por momentos no pós guerra, o estado social, a redistribuição e o acesso à educação abriram as portas das cercas sociais que nos arrebanhavam—para sempre, diziam os mais velhos—e acreditámos tudo ser possível? E tudo era o dinheiro, a arte, o sexo, a liberdade e o individualismo; e com o individualismo, a propriedade e o arbítrio; e a soberania sobre a mais básica das nossas possessões, o corpo. Fodemos tudo? Não sei. Não sequer sei se fomos nós. Fodemos a nossa saúde, isso sei. O resto fodeu-se por si. Nós apenas elevamos o individualismo a valor primordial, ao contrário dos modernos, que o estipulam como direito inalienável e escrito na pedra—mesmo quando se organizam em rebanho ululante, pretensamente colectivista, mas apenas um rebanho de identidades, individualidades paradoxalmente iguais.
O desabafo millennial deu-se enquanto assistíamos ao The Deuce, e era, sobretudo, inveja da festa. Sentimento legítimo e compreensível perante o meu sorridente comentário “As coisas eram mesmo assim”. Mas aquela festa, que começou nos anos 70 e terminou no fim dos 80, uma festa crua, rija, feita de arte, moda, dinheiro, carros, sexo, drogas, funk, disco, punk, new wave, pop e rock n roll, não volta mais. 

"Some of it happened. Some of it didn't happen. Some of it might have happened. But all of it could have happened” disse David Simon, o autor do The Deuce, referindo-se às histórias das três temporadas. A primeira passada em 1970/71, a segunda em 77/78 e a terceira em 84/85. As histórias são sobretudo personagens, personagens que fluem, slice of life. Não há um enredo, definido canonicamente como um personagem e uma situação por resolver. Há apenas o Deuce, aquele pedaço da rua 42 outrora porco, decadente e vibrante. Ou seja, há muitos enredos.
David Simon é um dos dotados. Escreveu o The Wire, Treme, The Deuce e a belíssima adaptação do Plot Against America do P. Roth. O homem foi jornalista e depois argumentista. Sempre escritor. O formato ficção, que adoptou, é do melhor realismo que já vi escrito e filmado. Os temas são da vida na cidade, aqueles que o jornalismo já não trata, porque não pode, porque se tornou irrelevante.
"I've become increasingly cynical about the ability of daily journalism to effect any kind of meaningful change. I was pretty dubious about it when I was a journalist, but now I think it's remarkably ineffectual" diz Simon em 2004, quando se deu conta de que o jornalismo havia abdicado da sua função de olhar o mundo, as esquinas e as ruas.
Hoje, o jornalismo está ainda mais longe das esquinas. É ficção mal escrita, entretenimento pobre, sobretudo encomendado, ou então filme de catástrofe, quando a natureza ajuda a produção; mas no dia-a-dia, mesmo durante a catástrofe, apenas caixa de ressonância de interesses que o manipulam e alimentam. Valha-nos a ficção, que é quase tudo o que nos resta para entender o que se passa.

Na 3ª temporada do The Deuce, a grande festa—e a estupefação, e o crime e as doenças do excesso que inevitavelmente com ela partilham o ecossistema—acaba em tragédia: o Deuce é limpo. Nascem escritórios, hotéis, apartamentos caros, ruas limpas cruzadas por diligentes funcionários; nasce o tempo que hoje vamos vendo acabar. As putas são varridas para longe, os chulos tornam-se irrelevantes com o advento dos pagers e da electrónica, a indústria pornográfica metamorfoseia-se e foge para oeste, os protagonistas do lugar morrem de sida, suicidam-se, são assassinados ou, o que é mais trágico depois de anos de enérgicas e vibrantes meias vidas noturnas, envelhecem e decaem em memórias. Outros, longe da história, tornam-se protagonistas da gula pós histórica, tomam conta do lugar e enchem-se. E nós, os que pela segunda vez nas nossas vidas assistimos àquilo, agora em forma de ficção, entristecemos com o fim; estranhamente nostálgicos da porcaria, do crime, do excesso, das drogas, das doenças, da violência, dos nossos Deuces, e da imensa vontade de viver, fazer, mudar e criar que todo aquele esterco em nós estimulava.


"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar." *

Palavras de Clarice Lispector

26 de maio de 2020

Dois cêntimos de infância

Gosto muito deste texto – também tenho direito a gostar mais de um ou outro dos meus textos. Neste, visito o que já é só memória, congelada recordação. Tudo, a casa, o bairro, as coisas e os lugares da minha infância, soprou-os o vento da História. Mesmo os rostos, amigos ou hostis, dispersou-os em diáspora e solidão um inclemente ciclone tropical.


Num ápice, o filme salta da eufórica multidão de um rodeo para o silêncio da vasta pradaria que uma desgarrada árvore não chega a interromper. Assim começa “Lusty Men”, de Nicholas Ray.

Robert Mitchum é um cow-boy que vive da espúria arte dos rodeos. Doma cavalos, laça bezerros e monta touros. Nos intervalos, mulheres. Nessa tarde que parecia ser de glória conhece os cornos do infortúnio. Entrou na arena de corpo vaidoso e resplandecente camisa branca. Quando, no final da curta cena, o voltamos a ver, o corpo cansado já arrasta uma perna coxa. É um aleijado num mundo que os nega e rejeita.

Um minuto de filme, o tempo da glória. Abruptamente, da multidão, dos altifalantes do estádio, das incontidas ovações, Nicholas Ray tira-nos e atira-nos para uma paisagem imensa e vazia. Um silêncio de poeira, grilos e cigarras, um consumido resto de Verão, seco e estéril. Vemos o mesmo Mitchum que é já outro Mitchum. Caminha em direcção a uma casa abandonada.

Há, entre o homem oscilante e a casa decrépita, uma antiga familiaridade. Os passos de Mitchum são os passos envergonhados de quem, vencido, regressa a casa. Um cadeado ferrugento fecha o portão da cerca, já Mitchum sobe os degraus do alpendre e empurra a porta que não cede. Este coxo Ulisses, que nem a desculpa de uma Penélope tem, volta-se e sabemos pelos admiráveis e brandos olhos dele o bem e a dor, a dor e o bem, que lhe faz contemplar a interminável pradaria.

Dá a volta à casa e, de repente, pára. Pára porque um fragmento, esplêndido fragmento do passado, lhe iluminou as memórias. Afasta com o pé um esquálido arbusto e, como só um miúdo sabe ser clandestino, rasteja para debaixo da estrutura em que assenta a casa. Lá por baixo, no sujo e mágico pó do tempo, as mãos tacteiam um tesouro: a revista de quadradinhos, a criancice de um revólver inútil, uma velha bolsa de tabaco onde em miúdo guardava moedas. Encontra dois cêntimos, tantos anos depois.

Dois cêntimos de infância podem ser a infância toda, intacta. Procuro no bolso os meus dois cêntimos e falo por mim: não tenho a sorte de Mitchum. Não voltarei a essa intacta infância. Não sujarei a camisa branca rastejando para baixo da casa dos meus pais. Não voltará às minhas mãos o trémulo revólver de um Natal angolano.

Criado, eu e um milhão de portugueses, na casa errada da História, não tenho lugar a que possa regressar e dizer, como Mitchum, “quase nada mudou na casa” ou “dormi neste quarto”. Fez 59 anos este 4 de Fevereiro de 2020: outros homens saíram debaixo do que nem eram casas para me ensinar que a minha casa não era a minha casa. Uma espessa camada de História, de gerações inocentes em busca da sua liberdade, sepultou os segredos que escondi na casa dos meus pais. Não se rasteja para tão fundo. Aos coxos da História não se dá o consolo de dois cêntimos de infância.

25 de maio de 2020

" Várias maneiras de perder tempo" | (para começar bem a semana)

O horror do humano ao humano





realmotsenses
O Império dos Sentidos, Nagisa Oshima

Se o erotismo é uma forma de aristocracia, então Anatole Dauman é um príncipe da Renascença. Há três décadas entrevistei-o no Expresso, o jornal que durante mais décadas teve a paciência de me aturar, quatro em intermitência.

Dauman fora o prestigiado produtor de “Hiroshima, mon amour” de Alain Resnais, da perturbadora “Mouchette” de Robert Bresson, do sexuado “Masculin, Féminin” de Godard, das “Asas do Desejo” do sorumbático Wenders, para ir a jogo só com ases.

Conversámos no histórico Avenida Palace. Assentava-lhe bem a nostalgia do cenário. Vestia-se com uma elegância de faubourg Saint-Honoré, segurando um copo de vinho como se fosse um ceptro de imperador. Falava devagar, procurando as palavras por disciplinado amor à retórica e para se consolar com o som do que dizia. Pensei: há seres humanos que têm no narcisismo a maior virtude.

Parte eslavo, parte judeu, francês de cérebro, Dauman era sempre estrangeiro e no fio da navalha. Os filmes que produziu situam-se nos limites de amor e morte que, cúmplices, roçam já pelo crime.

Começo por “Nuit et Brouillard”, de Resnais. A noite e o nevoeiro desse filme, que faz da escuridão humana e das cinzas dela a sua matéria, leva-nos aos campos de concentração, dez anos depois do genocídio. Filma-se a paisagem bucólica de Auschwitz, a rasteira vegetação que cresce, o parvo sol distraindo-se por um fio de estrada: nem gritos, nem sangue, nem as cinzas de um osso ou da carne que já foi um braço, o ansioso seio do amor. Nada, ninguém, diria de forma mais horrenda a inutilidade do crime nazi do que a silenciosa amoralidade da natureza. Os carris sem uso, outrora de nocturno vómito, cães e medo, estão agora cobertos de ervas sopradas pela indolente brisa do Verão. Dizem que a Natureza tem horror ao vazio, mas o que ali se vê é o horror a um humano que a Natureza se obstina a apagar depressa.

Outro filme, de extremo horror do humano ao humano, foi o “Império dos Sentidos”. Dauman pediu ao realizador, o japonês Oshima, uma “tourada de amor”. Com sangue, vermelhíssimos quimonos, uma faca e uma estocada de morte.

Nessa história de ilimitada paixão entre uma criada de hotel e o dono dele, os amantes atacam o corpo um do outro como um exército um território ou o canibal a sua presa: atacam a boca, o sexo, a menstruação, o estrangulável pescoço. “O que sentes?” perguntam. E quando sussurram “não te posso ver sofrer!” é só para ir mais longe, buscar a inenarrável alegria da dor. Nesse filme, que tanto ensinou ao Arcebispo de Braga quando eu o programei na RTP 2, amor rima com morte, sexo com sangue.

Ascese, protestava Dauman, sentado na nobre decadência do Avenida Palace. A ascese de Van Gogh foi a de cortar a própria orelha. A dos amantes do “Império dos Sentidos” culmina na sufocada morte e no corte cerce desse apêndice que num homem é o ramo e os seus frutos.

Must