3 de junho de 2020

Minecraft Solidário



O Máximo, o meu sobrinho mais novo, fez anos há poucos dias. Na festa de aniversário, em espaço aberto, com distanciamento e convidados em número limitado, ouviu a mãe, minha irmã, contar que tinham pirateado a conta de Minecraft do filho de Nuno Markl. Achou uma grande maldade, «oh! tanto trabalho perdido». E num instantinho, fez os pallbearers em Minecraft, para que a mãe enviasse a Nuno Markl com a seguinte mensagem para o seu filho: 
- Não fiques triste, faz como no meme, enterra o que está perdido e começa de novo.
Confesso, tenho mesmo qualquer coisa a aprender com este meu sobrinho...


1 de junho de 2020

Aldeia da Roupa Branca


Andava para ali meio perdida pelo Instagram, mas ao revê-la lembrei-me do nosso Manuel S. Fonseca (eu acho que o S é de Salvador!) e do que seria se nos contasse uma daquelas histórias que nem a própria raparinha da franja saberia.

Ó Mestre! Anda daí lavar roupa suja!

Aldeia da Roupa Branca, Carcavelos. Portugal, 2020.






Esperança


para TTS

31 de maio de 2020

ficheiros inacessiveis



em tudo há uma fissura.
é por onde entra a luz






imagem Ana Marchand
palavras de Leonard Cohen

27 de maio de 2020

A Nostalgia do Esterco


E outros pensamentos enquanto via o “The Deuce”


“Vocês, cabrões, divertiram-se tanto que a culpa do mundo estar como está é da vossa geração.”
Ela se calhar tem razão. Mas que raio havíamos de fazer, depois de anos de miséria, ou frugalidade na melhor das hipóteses, de memórias de guerras e holocaustos, de décadas de hipócritas morais que sancionavam vícios privados ao lado de beatas virtudes públicas?
O que havíamos de fazer quando, por momentos no pós guerra, o estado social, a redistribuição e o acesso à educação abriram as portas das cercas sociais que nos arrebanhavam—para sempre, diziam os mais velhos—e acreditámos tudo ser possível? E tudo era o dinheiro, a arte, o sexo, a liberdade e o individualismo; e com o individualismo, a propriedade e o arbítrio; e a soberania sobre a mais básica das nossas possessões, o corpo. Fodemos tudo? Não sei. Não sequer sei se fomos nós. Fodemos a nossa saúde, isso sei. O resto fodeu-se por si. Nós apenas elevamos o individualismo a valor primordial, ao contrário dos modernos, que o estipulam como direito inalienável e escrito na pedra—mesmo quando se organizam em rebanho ululante, pretensamente colectivista, mas apenas um rebanho de identidades, individualidades paradoxalmente iguais.
O desabafo millennial deu-se enquanto assistíamos ao The Deuce, e era, sobretudo, inveja da festa. Sentimento legítimo e compreensível perante o meu sorridente comentário “As coisas eram mesmo assim”. Mas aquela festa, que começou nos anos 70 e terminou no fim dos 80, uma festa crua, rija, feita de arte, moda, dinheiro, carros, sexo, drogas, funk, disco, punk, new wave, pop e rock n roll, não volta mais. 

"Some of it happened. Some of it didn't happen. Some of it might have happened. But all of it could have happened” disse David Simon, o autor do The Deuce, referindo-se às histórias das três temporadas. A primeira passada em 1970/71, a segunda em 77/78 e a terceira em 84/85. As histórias são sobretudo personagens, personagens que fluem, slice of life. Não há um enredo, definido canonicamente como um personagem e uma situação por resolver. Há apenas o Deuce, aquele pedaço da rua 42 outrora porco, decadente e vibrante. Ou seja, há muitos enredos.
David Simon é um dos dotados. Escreveu o The Wire, Treme, The Deuce e a belíssima adaptação do Plot Against America do P. Roth. O homem foi jornalista e depois argumentista. Sempre escritor. O formato ficção, que adoptou, é do melhor realismo que já vi escrito e filmado. Os temas são da vida na cidade, aqueles que o jornalismo já não trata, porque não pode, porque se tornou irrelevante.
"I've become increasingly cynical about the ability of daily journalism to effect any kind of meaningful change. I was pretty dubious about it when I was a journalist, but now I think it's remarkably ineffectual" diz Simon em 2004, quando se deu conta de que o jornalismo havia abdicado da sua função de olhar o mundo, as esquinas e as ruas.
Hoje, o jornalismo está ainda mais longe das esquinas. É ficção mal escrita, entretenimento pobre, sobretudo encomendado, ou então filme de catástrofe, quando a natureza ajuda a produção; mas no dia-a-dia, mesmo durante a catástrofe, apenas caixa de ressonância de interesses que o manipulam e alimentam. Valha-nos a ficção, que é quase tudo o que nos resta para entender o que se passa.

Na 3ª temporada do The Deuce, a grande festa—e a estupefação, e o crime e as doenças do excesso que inevitavelmente com ela partilham o ecossistema—acaba em tragédia: o Deuce é limpo. Nascem escritórios, hotéis, apartamentos caros, ruas limpas cruzadas por diligentes funcionários; nasce o tempo que hoje vamos vendo acabar. As putas são varridas para longe, os chulos tornam-se irrelevantes com o advento dos pagers e da electrónica, a indústria pornográfica metamorfoseia-se e foge para oeste, os protagonistas do lugar morrem de sida, suicidam-se, são assassinados ou, o que é mais trágico depois de anos de enérgicas e vibrantes meias vidas noturnas, envelhecem e decaem em memórias. Outros, longe da história, tornam-se protagonistas da gula pós histórica, tomam conta do lugar e enchem-se. E nós, os que pela segunda vez nas nossas vidas assistimos àquilo, agora em forma de ficção, entristecemos com o fim; estranhamente nostálgicos da porcaria, do crime, do excesso, das drogas, das doenças, da violência, dos nossos Deuces, e da imensa vontade de viver, fazer, mudar e criar que todo aquele esterco em nós estimulava.


"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar." *

Palavras de Clarice Lispector

26 de maio de 2020

Dois cêntimos de infância

Gosto muito deste texto – também tenho direito a gostar mais de um ou outro dos meus textos. Neste, visito o que já é só memória, congelada recordação. Tudo, a casa, o bairro, as coisas e os lugares da minha infância, soprou-os o vento da História. Mesmo os rostos, amigos ou hostis, dispersou-os em diáspora e solidão um inclemente ciclone tropical.


Num ápice, o filme salta da eufórica multidão de um rodeo para o silêncio da vasta pradaria que uma desgarrada árvore não chega a interromper. Assim começa “Lusty Men”, de Nicholas Ray.

Robert Mitchum é um cow-boy que vive da espúria arte dos rodeos. Doma cavalos, laça bezerros e monta touros. Nos intervalos, mulheres. Nessa tarde que parecia ser de glória conhece os cornos do infortúnio. Entrou na arena de corpo vaidoso e resplandecente camisa branca. Quando, no final da curta cena, o voltamos a ver, o corpo cansado já arrasta uma perna coxa. É um aleijado num mundo que os nega e rejeita.

Um minuto de filme, o tempo da glória. Abruptamente, da multidão, dos altifalantes do estádio, das incontidas ovações, Nicholas Ray tira-nos e atira-nos para uma paisagem imensa e vazia. Um silêncio de poeira, grilos e cigarras, um consumido resto de Verão, seco e estéril. Vemos o mesmo Mitchum que é já outro Mitchum. Caminha em direcção a uma casa abandonada.

Há, entre o homem oscilante e a casa decrépita, uma antiga familiaridade. Os passos de Mitchum são os passos envergonhados de quem, vencido, regressa a casa. Um cadeado ferrugento fecha o portão da cerca, já Mitchum sobe os degraus do alpendre e empurra a porta que não cede. Este coxo Ulisses, que nem a desculpa de uma Penélope tem, volta-se e sabemos pelos admiráveis e brandos olhos dele o bem e a dor, a dor e o bem, que lhe faz contemplar a interminável pradaria.

Dá a volta à casa e, de repente, pára. Pára porque um fragmento, esplêndido fragmento do passado, lhe iluminou as memórias. Afasta com o pé um esquálido arbusto e, como só um miúdo sabe ser clandestino, rasteja para debaixo da estrutura em que assenta a casa. Lá por baixo, no sujo e mágico pó do tempo, as mãos tacteiam um tesouro: a revista de quadradinhos, a criancice de um revólver inútil, uma velha bolsa de tabaco onde em miúdo guardava moedas. Encontra dois cêntimos, tantos anos depois.

Dois cêntimos de infância podem ser a infância toda, intacta. Procuro no bolso os meus dois cêntimos e falo por mim: não tenho a sorte de Mitchum. Não voltarei a essa intacta infância. Não sujarei a camisa branca rastejando para baixo da casa dos meus pais. Não voltará às minhas mãos o trémulo revólver de um Natal angolano.

Criado, eu e um milhão de portugueses, na casa errada da História, não tenho lugar a que possa regressar e dizer, como Mitchum, “quase nada mudou na casa” ou “dormi neste quarto”. Fez 59 anos este 4 de Fevereiro de 2020: outros homens saíram debaixo do que nem eram casas para me ensinar que a minha casa não era a minha casa. Uma espessa camada de História, de gerações inocentes em busca da sua liberdade, sepultou os segredos que escondi na casa dos meus pais. Não se rasteja para tão fundo. Aos coxos da História não se dá o consolo de dois cêntimos de infância.

Must