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23 de julho de 2020

ENTRE DOIS MUROS DE ÁGUA


entre dois muros de água

Da janela do quarto aberta a toda a luz, vejo as copas da fila de árvores que atravessam a rua e a partem ao meio como Moisés partiu o mar: um povo de folhas verdes avança não entre dois muros de água mas entre prédios duros. Uns, os primeiros, tão velhos, e ao lado um novo e feio, e outro a ser recuperado. E mais outro. Duas gruas altas, novos campanários onde se anuncia o luxo do metro quadrado a oito mil euros. Lisboa ainda é assim, paredes meias de absoluta diferença. Assimetrias agudas. As árvores não querem saber disso para nada e crescem também em altura, chegam já ao quarto andar.

Ao fim da tarde, as gaivotas pousam na grua do lado de lá a ver a noite chegar. E voam só um pouco acima das copas e das cérceas. Eu acho que as gaivotas são gozonas, uns bichos fortes e secos. Vivi quase vinte anos perto da praia, nem quinhentos metros de distância… conheço-as. O cão que passeia lá em baixo de trela não as conhece. Ladra. Do alto ela responde. Provoca. Ele, coitado, ladra e volta a ladrar às alturas. Às gaivotas sai-lhes esta espécie de latido da garganta que nos confunde. Por alguma razão lhes chamam os cães do mar. Mas o cão lá em baixo não sabe. E procura.

Não sei se será assim tão diferente daquilo que as pessoas fazem umas com as outras. Os poderes. Asas e latidos, e em baixo, de trela, cães confusos a ladrar, a morder ar quente e mais nada. Para dizer a verdade, não tenho vocação para La Fontaine, nem para as fábulas e os seus clichés e adversativas exemplares para a construção do mundo à imagem de Portugal dos Pequeninos. Não. Prefiro atravessar grandes muros de água.

26 de junho de 2020

DESTEMIDAS? SIM, OBRIGADA




Destemidas é o bom título português de Les Cullotées, inicialmente uma tira de BD, criada por Pénélope Bagieu, no blog homónimo do Le Monde, sobre trinta mulheres admiráveis que ousaram mudar o mundo. Mulheres destemidas. Depois do sucesso das tiras, o sucesso em livro, publicado pela Gallimard, e amplamente traduzido. Premiado. Por fim, a série da France Télévision, apoiada pelo Programa de Media da União Europeia.

Foi esta série emitida pela RTP 2, com este conteúdo, que viu o episódio sobre Thérèse Clerc transferido do espaço online infanto-juvenil Zig-Zag para a RTP Play após queixas de tele-espectadores ao Provedor da RTP e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo o Partido Renovador Democrático anunciado já uma queixa-crime contra a RTP.

O que desencadeou a fatwa ultra-conservadora foi o percurso de Thérese Clerc, de católica e casada a marxista, divorciada e lésbica, activista. Feminista. Não sendo demais referir que foi a marxista, divorciada, lésbica, activista quem se insurgiu contra a violência doméstica, a criminalização do aborto, e quem abriu a primeira universidade sénior, quem lutou pelos direitos LGBT. Mas tudo quanto fez desaparece diante de um beijo na boca. A uma mulher. E se afunda na luta pelo direito ao aborto.

Sendo eu católica, essencialmente conservadora, de um PSD que, por vezes, me dá vontade de voltar ao socialismo utópico da minha destemida avó, ateia, e defensora do aborto e da condenação efectiva de quem batia em mulher e filhos, devo dizer que muito me surpreende que a homossexualidade, a religião e o aborto, liberdades constitucionalmente garantidas por este Estado de Direito em que vivemos, possam ser consideradas matéria imprópria e censurável, por muito que possam, e em simultâneo, ser práticas inaceitáveis para pessoa A ou B, no exercício da sua liberdade de escolha pública ou privada. Cito:

«O programa infantil da RTP2 promove aborto, divórcio e homossexualidade. Segundo a Rádio Televisão Portuguesa (RTP), ‘o Zig Zag é o espaço infantil da RTP dedicado a crianças entre os 18 meses e os 14 anos’. Neste programa, que mostramos, é escandalosa a defesa e promoção do aborto, conseguido como uma vitória, e não uma derrota, para a sociedade, como se a morte de um bebé inocente pudesse ser uma coisa boa. Faz-se, também, o elogio a uma mulher, com 4 filhos, que sai de casa para ir viver com outra mulher. O ódio ao Catolicismo percorre o vídeo inteiro

A democracia permite a divergência. E exige por junto com a liberdade, responsabilidade. A Associação das Famílias Conservadoras tem direito a expressar a sua opinião, esta supra-citada, ou qualquer outra. Não tem, no entanto, o direito de impor a sua visão do mundo ao mundo, o direito de ver as suas pretensões censórias conseguidas. Não creio que o papel do Provedor da RTP seja o de facilitador e consolador de ultra-conservadores. Muito menos o de lápis azul.  

Destemidas? Sim, obrigada.


25 de junho de 2020

GO ALL THE WAY

GO ALL THE WAY

Gosto de saber que caminho ao teu lado
e todas as liberdades são nossas,
não porque as tenhamos tomado,
mas porque logo ao princípio de tudo
não tínhamos nada a perder
e a verdade escreve-se
melhor do que a mentira.

E dizem que escrevemos como homens…

Escrevemos como mulheres
a quem ninguém ensinou a ser
nem isso nem coisa alguma,
e vida apanhou-nos de surpresa
com a sua realidade feita de
prateleiras de supermercado,
empregos, carros, compras,
casamentos e outras misteriosas
arestas de funcionamento secreto
que não sabemos arredondar.

Não fazemos mais do que viver a custo,
cheias de atenção, de olhos muito abertos,
nem há outra maneira de comer luz,
e agarradas onde ela se prenda,
até a uma nesga de sombra num lugar escuro,
salvas pelos prodígios da beleza pródiga
acima de todo bem e de qualquer mal,
e pela dádiva do riso.

No mundo palafítico de onde viemos
natural é afundar e morrer -
já ganhámos.

13 de junho de 2020

A Juventude dos Pássaros


A JUVENTUDE DOS PÁSSAROS

Seguia o voo das aves
pelas suas agudas sombras rápidas
no prédio da frente,
no vidro da janela.
A voraz queda a pique.
Mas nenhum corpo de pássaro
sequer roçou o alcatrão morno.

As aves,
 no exercício da sua natureza,
divertem-se a testar
os limites da destreza das suas asas,
montanhas russas de prazer
entre mínimas gotas de chuva
no Verão que se promete.

A queda está apenas no olhar de quem vê sombras.

3 de junho de 2020

Minecraft Solidário



O Máximo, o meu sobrinho mais novo, fez anos há poucos dias. Na festa de aniversário, em espaço aberto, com distanciamento e convidados em número limitado, ouviu a mãe, minha irmã, contar que tinham pirateado a conta de Minecraft do filho de Nuno Markl. Achou uma grande maldade, «oh! tanto trabalho perdido». E num instantinho, fez os pallbearers em Minecraft, para que a mãe enviasse a Nuno Markl com a seguinte mensagem para o seu filho: 
- Não fiques triste, faz como no meme, enterra o que está perdido e começa de novo.
Confesso, tenho mesmo qualquer coisa a aprender com este meu sobrinho...


10 de maio de 2020

DECRETOS IMORTAIS

DECRETOS IMORTAIS

De que é feito 
o pequeno grão de areia,
a fronteira natural e eterna
do grande mar?

Levantam-se as ondas
e rugem nas suas altas cristas
os leões e os seus poderes,
as patas já sobre a linha de espuma
onde o sal queima de sede.

E assim mesmo a água recua.

De que é feito
esse pequeno grão de areia,
se não for da certeza
do decreto da Voz na sua voz?
É a Poesia que diz ao jugo:
- Para trás. Não passarás.


5 de maio de 2020

Pensei


PENSEI

Pensei que tinha vindo
para te pôr uma mesa de palavras,
a ordenação dos dias bravos
interrompidos pela lírica
e trazer-te com a fome, o pão de estrelas.

Pensei que tinha vindo
para iluminar as coisas de dentro para fora
enquanto alinhava o copo da água
pela faca para organizar o caos,
o teu e o meu, com a clareza fibonacciana
do universo em expansão.

Pensei.

16 de abril de 2020

Luís Sepúlveda, o tempo, e o Homem Cão




Diário - tempo de pandemia - Em Casa 05 

Luís Sepúlveda, o tempo, e o Homem Cão 

Morreu Luís Sepúlveda. Setenta anos. Uma idade péssima para morrer. Todas as idades são más para morrer ainda que haja horas boas para morrer ou décimos de segundos, aqueles em não se aguenta e uma pessoa não explode nem implode nem morrer consegue, que pena, e que sorte, pois não conseguiria renascer à la carte. O homem ali da frente vem fumar à hora certa. Fuma, debruça-se e fica. E recomeça. Em 2020, não sei se ainda alguém fuma dentro de casa. Há gente que nunca deixa entrar o cão. O cigarro é o cão desta época. Na rua. Não entra, ouviu? Luís Sepúlveda morreu de infecção por corona vírus, o homem no prédio em frente que fuma no varandim sem medos respiratórios, olha para aqui, imagino que pense quem é aquela, nunca a vi, de computador, a escrever na cama, mas não corro as cortinas porque as copas altas em vagas de mar verde de folhas frescas de chuva e vento agitam-se, iluminam o céu e entram pela janela. Hoje, NunoPacheco, no Público, claro, fala sobre o «ortogravírus», o acordo ortográfico de1990. Fala da solidão dos «infetados», os portugueses, e de uns poucos, decerto, em Bissau, já que no Brasil continuam a ser infectados e pelo mundo dito lusófono a infecção continua com dois cês. Nos Estados Unidos é bem capaz de ter quatro ou cinco, vi a carrinha da recolha de corpos a fazer paragens nas casas - Luís Sepúlveda morreu no hospital. Setenta anos. Um escritor não pode morrer com setenta anos se é aos sessenta, sessenta cinco que atinge a maioridade na escrita. Não pode, não no século vinte e um. No passado, extraordinários escritores precoces morreram em idades inconcebíveis para aquilo que escreveram. Talvez porque então o tempo durasse pouco, havia páginas de prodígio e uma pessoa ainda hoje pasma diante da grandeza dessa raça de gigantes caídos aos vinte e tal anos. Trinta. Cinquenta e poucos. Li, não sei onde, que os físicos atingem o pico de produção antes dos trinta anos. A idade óptima. É muito cedo. A biologia da fertilidade da mulher também. Quem é que hoje pode ser mãe na idade óptima para engravidar, aos vinte e três, vinte cinco anos? Decidi enviar a Nuno Pacheco um poema citrino e acidulado do meu penúltimo livro sobre o acordo ortográfico, e a poderosa inteligência literária portuguesa, para lhe dizer que também nesta quarentena linguística estamos juntos. Ter-lho-ia enviado. Durante um décimo de segundo poderia tê-lo feito. Luís Sepúlveda morreu e Agualusa comentou. Para morrer é preciso existir entre iguais. Não enviei nem enviarei. Estou farta. Des-existo. Escrevo e isso chega. Leio e existem à minha volta. Talvez os escritores lidos não morram, afinal. Nem aos setenta nem nunca, talvez apenas deixem de escrever. Lá está ele, pendurado no varandim de ferro, cigarro entre os dedos, o homem-cão a fumar por cima das copas das árvores, vagas de folhas frescas e verdes. Ao fim da tarde, virão os papagaios.

11 de abril de 2020

Doente, imoral, neurótica


Nem em 1957 nem em ano algum! 

Diário – tempo de pandemia – Em Casa 04

doente, imoral, neurótica

Na revista do semanário Expresso de hoje, sábado, 11 de Abril de 2020, O Regresso da Família Alargada, antípodas do que sou e construo, um belíssimo artigo de David Brooks, assim mesmo a man after my own heart… como a Bíblia se infiltra até nos lugares comuns do pensamento onde processamos sentimentos: I have found David the son of Jesse, a man after mine own heart, which shall fulfil all my will.

Estou de relações cortadas com Deus e a igreja Católica Apostólica Romana desde a Páscoa do ano passado. Nem prevejo reconciliação: esgotei todo o stock de catolicismo praticante, não conheço outro, e não houve reposição sequer dos alimentos básicos: obediência, fé. Ao requisito de indiferenciação, ali tão bem demonstrado no cumprimento de toda a Sua Vontade, insaciável, até à morte em cruz, digo não – talvez não nos salvemos de ir ao tapete, e talvez também ninguém nos salve de ir ao tapete, mas se é para cair, seja sempre a lutar. Aceite quem possa a rendição. Eu não. Porém à Bíblia, livro fundamental, digo sim. Sempre disse. É a casa mãe de um poeta acima de qualquer outro dos lugares canónicos - e são tantos e de tão diferentes proveniências os textos pão, matriciais para a síntese entre o oriente e o ocidente do pensamento.

David Brooks escreve no New York Times e em The Atlantic. É professor e comentador. Um conservador moderado que integra princípios liberais e, como muitos republicanos, em rota de colisão com Trump desde o primeiro momento. Discordo dele com regularidade suiça, a mesma com que concordo - talvez porque não sou Deus a diferença alegra-me e desperta-me. David Brooks é sensato e moral, duas virtudes de pouco sex appeal, dizem, eu discordo, mas estruturantes como a coluna vertebral. Sempre gostei de gente assim, opostos dos easy riders. Fazem-me muita falta. Talvez porque a criatividade precisa de transgredir e destruir, processos que o buraco negro da anarquia engole e não permite. 

O capital de criação é igual ao potencial de destruição. Este caos, para ser funcional, precisa de ordem. Afinal, e de acordo com a sondagem que ele refere no texto, a de 1957, maioritariamente, os solteiros eram vistos como «doentes, imorais ou neuróticos». Check. Check. Check.




30 de março de 2020

Diário - tempo de pandemia - Em Casa 03


em casa 03

Vigésimo dia de isolamento social.

Todas as árvores da avenida estão agora em verde tenro acabado de verdecer e a estrada secou. A chuva foi pouca e miúda. Aqui em casa a música é muito boa, Thelonious Monk, Coltrane, Chet Baker… Estou a ouvir este Coffee Cold, queria escrever no ritmo, mas o teclado não vai nisso. Vou abanando a cabeça em estilo Maio de 68. Sempre tive a paixão do jazz. E adoro, mas adoro a desmaterialização da música e todos os hábitos que trouxeram o futuro para hoje. E o passado. É prodigiosa a técnica. 

Vigésimo dia. Não serei exactamente o Velho que o Vasco escreveu em De Folhas e Gaivotas. Desligo o telefone menos vezes e por menos tempo. Falo mais e com mais pessoas. Até já joguei House Party. Inacreditável, eu sei. Mas ainda estou muito longe do óptimo social. A verdade é que prefiro tomar café com Borges, em livro, a tomar café com quase toda a gente. E isto é uma perfídia. Mas viver assim rodeada também é uma alegria e um luxo. O meu querido Scruton, que não me fez a fineza de ser eterno, foi no outro dia, mesmo antes desta virulência, comigo para a cozinha fazer o jantar. Gosto tanto de estar na cozinha a conversar antípodas culinários enquanto eu de volta do fogão, prova lá, precisa de sal, não é? Mas não há muita gente de carne e osso e amor com quem se fale da poética da vida entre temperos e raciocínios mirabolantes e risíveis e sérios. As melhores ideias surgem-me quando estou a passear, a cozinhar, ou a ler poesia. Invariavelmente. As piores não precisam de suporte, são constantes. Num mundo perfeito, o melhor dos meus maridos, Steiner, faria podcasts do além e nós, cá, religiosos no verbo amar, a sintonizar dispositivos.

Às vezes penso que penso para não pensar. Aquela mulher no jornal da sic-n a dizer que esperava ser contaminada e morrer. Tão bonita. Uma mulher jovem. A jornalista a perguntar-lhe porquê à espera da óbvia resposta. E ela veio vestida de outra maneira: para descansar desta vida. Um campo de refugiados não é vida. Querer viver assim é ser louco. Descansar. Não há colcha nem casinha que te guardem nem HOPE. Somos espectadores destas assimetrias letais e outros monstros de sombra. A impotência é uma erva daninha e a arte salva-nos. Não a ela, no entanto.

Não vou à Gulbenkian, nem à Versailles nem à minha Dava onde encomendo o pão e as tâmaras. Não dou longos, nem curtos, passeios a pé enquanto espero o regresso da bicicleta. Saio para ir ao ecoponto para plásticos, papel e vidros agora que só há recolha de lixo orgânico. Vou ao supermercado uma vez por semana. Nestes tempos de solidariedade e abraços de arco-íris ainda não consegui comprar um pacote de farinha, nem um frasco de álcool. Desaparece tudo. Deve ser aquela malta dos quinhentos rolos de papel higiénico, aposto que têm na despensa vinte frascos de álcool e quinze quilos de farinha. Se me açambarcam o café, é bem capaz de haver uma revolução. Chego a casa como quem vem de uma central contaminada, sapatos ali, roupa na máquina, duche, ai porra que me esqueci limpar os iogurtes antes de os meter no frigorífico, e a papaia, faço-lhe o quê?

E há as listas.
. Ontem revi Arrival. Que bom filme.
. Estou a fazer um dos cursos online e gratuitos que Harvard disponibiliza.
. Li a Apologia de Sócrates que o Manuel Fonseca fez e só me apetece escrever ficção ateniense mas estou presa a um conto e liberdade não há.

Espero.

25 de março de 2020

Liberdade, liberdade

Imagem de Harvard Business Review.



liberdade, liberdade

Estamos imersos em informação, e desinformação, sobre o coronavírus. E porque não sou médica, nem de saúde pública, nem de investigação em qualquer área sequer tangente, limito-me a seguir as directivas da OMS e a observar. E o que observo é isto. O mundo fechou portas e abriu, de facto, as janelas do online. Sei: vivemos um tempo único na história. Há um antes e haverá um depois. Não por causa desta pandemia. Mas porque ela é o efeito desencadeador do futuro como o havemos de o conhecer. E porque ele ainda é embrionário podemos, devemos pensá-lo, co-criá-lo. Explico sumariamente.

Sempre li tudo. Romance. Poesia. Ensaio. E policiais, espionagem, banda desenhada. A imprensa e ficção científica. O bom, o mau e o assim-assim. Encontra-se, por vezes, grande pensamento em péssima semântica e sintaxe duvidosa - e vice-versa, o que é muito mais grave pois impressiona o indígena, como diria o tio Eça. Ora, as distopias, em boa ou má literatura, de qualquer género ou proveniência, não são apenas a elaboração do futuro, construídas sobre os nossos passados políticos e sociais somados a fantasias culturais, tecnológicas e científicas assustadoras. São também um indicador e uma moral.

Vivemos em democracia. Não vivemos uma distopia, a menos que estejamos diante da televisão ou do ecrã a ver The Handmaid´s Tale. Ou a reler Orwell. Mas neste exacto momento, estamos também com um pezinho em The Island, o filme, e outro em Foundation, de Asimov, e a respirar os ares de 2084, de Sansal Boualem. Porquê?


E vimos os resultados deste tipo de comércio no palco político. Trump, Bolsonaro, e criaturas afins, são a directa consequência da informação que partilhamos sobre nós, livre e voluntariamente. Os dados são armazenados e tratados e utilizados em cada recomendado para si, funil onde estreitamos o próprio pensamento e consequentes acçõesSeja um livro, um vídeo, um restaurante. Somos o que pensamos. Acrescentaremos agora, hoje e nos próximos sete anos, os dados que faltam. Os de saúde como em The Island. Exactamente o que a China já está a fazer com os residentes de Hubei, desde a geolocalização à temperatura corporal. E nós também, apenas não os estamos ainda a facultar às autoridades - quantos lances de escadas subiste hoje, Guilherme? E os do trabalho. Estamos na génese da nova revolução. Estamos a produzir, voluntaria e involuntariamente informação maciça. Começou a revolução laboral – ripple effect ainda incomensurável. A partir daqui, muda tudo. Se podemos produzir a partir destas pequeninas unidades em que vivemos, porque continuaríamos em estruturas gigantescas de elevadíssimos custos e consumos? E quem seremos, quem poderemos ser neste equilíbrio precário entre a atomização e a super-consciência, o super-cérebro em rede? E como?

Paradoxalmente, talvez o meu fascínio por distopias me afaste do cinismo e do pessimismo. Ao contrário do apregoado não é, nunca foi, o darwinismo social o gerador de grandes e benignas mudanças ao longo da nossa história, foi, sim, gerador de grandes catástrofes, felizmente, auto-circunscritas: inquisição, nazismo, estalinismo... A cooperação conduz a alterações de paradigma de outra natureza, e duradoura, e tem promovido o aumento da escolaridade média, da média de vida, da riqueza per capita, da igualdade de género. O crescendo civilizacional é inversamente proporcional aos vícios de poder dinásticos, mais ou menos nepotistas, autocráticos, narcísicos, mais ou menos corruptos.

Este é o tempo de nos pensarmos de forma global e isso pede-nos responsabilidade pessoal, social, e maturidade política. A democracia, sabemos de cor, é, e continuará a ser o pior regime, mas não há outro melhor.

23 de março de 2020

Querido, comi o carro




querido, comi o carro

A coisa passou-se há algum tempo. Conto sem introdução ou parágrafo. Vendi o carro para pagar a casa, a água, a luz, o seguro de saúde, enfim, para existir com as contas em dia. Porque não basta trabalhar. Muitas vezes não há, de todo, como existir por muito que se trabalhe. Com rigor. Com paixão. Dedicadamente. Nessas alturas, fingimos que somos árvores e, esquecidos de fruto e flor, despojamo-nos das possíveis folhas como se nada fosse, e dos ramos, tudo para preservar a raiz. É a altura de querido, comi o carro. Contudo, o que temos, o pequeno mundo que construímos é todo ele, também, um património afectivo. Amoroso. É tempo. O nosso tempo. Da nossa vida. Então, qual raiz?

Eu gostava do meu carro. Muito. Dizia a mim mesma que era por ter a matrícula com as letras do nome do meu Cão, o melhor do mundo em quatro perfeitíssimas patas, Cão hipérbole de todos os cães havidos e por haver. E talvez fosse, de facto, por isso, por tê-lo comprado depois de o Cão ter morrido e ver sinais da inexistente comunicação entre os mundos em duas letras de matrícula… A saudade inventa estas coisas para nos deixar acompanhados de quem não está. Mas a verdade é que também gosto das minhas chávenas e elas não contactam o além, e dos meus candeeiros, dos tapetes. Tenho apego aos meus pronomes possessivos. E quando me armei em saltimbanco, em cada mudança de casa, felizmente poucas, os caixotes de livros emparedavam-me em desespero de ter de os voltar a arrumar. Os meus livros. Então, quando vendi o meu carro, em vão consolo pensei, também Lucas Pires teve de o fazer, teve de comer o carro, e creio, como eu arrependeu-se de ter contado porque isto é uma coisa que fica no ouvido dos outros.

Os outros mudam quando comemos o carro. Quando pedimos ajuda - ajuda? Ainda que a ajuda seja em forma de assim emprego, trabalho, essa luz a abrir escuros onde a alma se põe e a capacidade de acreditar na competência, no mérito, na excelência. Num segundo, e eu tenho um metro e setenta e um, passei logo a medir um metro e cinquenta e três quando me fizeram o favor de me indicar para algo tão pouco, tão menor, tão longe do que sei fazer. Foi uma experiência reveladora: como nos vêem, porquê. E pedagógica. Aprendi o que não quero ser nem serei para quem confiar em mim o suficiente para me pedir ajuda. Mas também há quem lute por nós, e mesmo que não ganhe, em dias de grande tristeza, dias de não posso mais, de não há como, dias bons para desistir ou morrer, é com o seu fôlego que nos salva. Sem metáforas. Os nossos campeões, heróis particulares e sem reconhecimento, salvam-nos, ainda que nos digam, olha, gostaram muito dos teus textos, mas só estão a meter estagiários. Um metro e setenta e um.

Recuperei o carro, é verdade. Não desisti nem quando tive vontade. Mas envergonha-me muito viver ao lado de gente que agarra o privilégio sem abraçar a responsabilidade. E confunde serviço público com estação de auto-serviço. E outras pérolas de café onde desfiamos os males do mundo com bica cheia ou curta porque são fáceis de apontar e difíceis de curar – difícil, não é impossível: o psicanalista que mais respeito e admiro disse-me: zangue-se! Pois bem, estou zangada: dizem, o livro, poesia, literatura, a imprensa de qualidade são coisa de nicho. Sim, sim, na altura do império também o nosso rei não permitia que as escolas distassem menos de x quilómetros entre si, nas colónias, não fosse o povo aprender a pensar e agir como quem pensa, e em vez de comer o carro, implantasse a república.


22 de março de 2020

Diário - tempo de pandemia - Em Casa 02




em casa - 02

A Primavera começou antes no cimo da avenida. Reverdeceram as primeiras árvores da linha de árvores – porque estão num lugar mais alto onde o sol se apruma? Porque foram as primeiras a ser plantadas? Não sei. Estes mistérios botânicos de luz e calor fazem-me ir à janela, de chávena de café na mão, para ver melhor, como se, de as olhar, eu própria desenvolvesse uns olhos de lobo mau, grandes e explicativos por assimilação não da avozinha mas do verde das copas altas… Não sei.

Todo este tempo, aliás, tem sido o tempo do verbo não saber. É pasmoso, no entanto: quando nos ensinaram as conjugações ninguém nos advertiu que ao longo da vida, uma maioria significativa de verbos conjugados seriam antecedidos da sua negação. Não haver. Não ter. Não amar. Não saber. Não saber está agora no zénite do dicionário de verbos. Não sabemos quanto tempo ficaremos em casa. Não sabemos as perdas que teremos. Não sabemos porque razão as primeiras árvores arredondam as suas frescas copas verdes. Não sabemos sequer como sobrevivemos aos despojos da nossa própria vida. Eu, que gosto da minha casa perfeitamente organizada e tenho o culto do lugar das coisas, às vezes, tropeço em matérias já invisíveis sobre os tapetes, quase nunca caio, mas entorses várias, do tornozelo, o Cão, ao meu colo, a cabeça no meu ombro, o corpo já vazio, leve demais, todo gasto da vida, levo-o assim para morrer com assepsia veterinária, entorse do joelho, nem andar se pode depois de ficarmos sem resposta, nenhuma resposta, o telemóvel funciona, é melhor desligar e ligar outra vez, será que tenho rede, e o email repetidamente actualizado na caixa de entrada, à espera da resposta, nem andar se pode no desemprego, essa semântica de burocrata para não há lugar para ti, para fazeres o que fazes bem feito, nem para seres quem és, inteiro, é impossível não cair com um tropeção destes, não te amo, e as incontornáveis despedidas dos nossos mortos amados, knockout cardíaco, vamos ao tapete.

E assim mesmo a Primavera começa. Começa antes. E continuará depois, uma por uma, em todas as árvores em linha da avenida, verdes: conjugação do verbo sim. Sei lá como.



21 de março de 2020

Regressámos. Estamos em casa. Bem vindos.


EM CASA

A rua está vazia -
e nem Sophia o previa:
a poesia está em casa,
quase de certeza ao teu lado,
mais próxima ou mais distante
do fogão, com ou sem o controlo
remoto da televisão na mão
que não está na tua mão quando
a poesia não está na rua,
está em casa, quase de certeza,
ao teu lado.

Must