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17 de julho de 2020

Kalifat



   
“Kalifat” - Netflix 

O que nos é dado como adquirido passeia-se ao nosso lado. Convive connosco como aquele amigo de sempre, que achamos estar lá sempre para nós. Nem as coisas que pensamos serem adquiridas o são efectivamente, nem esse amigo está lá (sempre) para nós. 

O passado dia 25 de Abril bateu-me forte, ou melhor, trancou-me em casa e bateu a porta com força. Eu não estava à espera de tamanho abanão e assim foi, porque a liberdade estava fechada comigo em casa. Não podíamos sair. Não podíamos festejar e talvez por isso, ou assertivamente por isso, ou exclusivamente por isso, por estar confinada e privada de uma série de coisas, lembrei-me de todos os 25 de Abril que festejei. Era jovem e inesgotável. Não havia crepúsculo nem aurora. Eram dias de seguida. Dias sem ponta para se pegar, eram dias a fio. E ao relembra-los, fui feliz. Fui feliz na medida que dura a felicidade de uma memória. 

Coloquei uma Playlist que Zeca Afonso encabeçou e dancei com o meu filho na sala. Ele que ainda é inesgotável e feliz, sem medidas, dançou, pulou e imitou-me, ora nas piruetas, ora nos movimentos meio toscos contemporâneos. O meu filho é um excelente bailarino de dança contemporânea. Fizemos a festa possível. Foi o 25 de Abril possível, mas foi este que me desencadeou um pensamento que tinha como mais ou menos adquirido e afinal o que tenho, são mais do que menos dúvidas. Sou livre?
Nesse dia e nos muitos que se seguiram a liberdade não me deu paz, deu-me voltas e emaranhou-me por caminhos que tinham todos a mesma saída: eu presa ao conceito de liberdade sem poder sair dela. E não me refiro apenas à quarentena a que todos fomos sujeitos. Refiro-me à vida que queremos viver e não vivemos. As escolhas que fazemos quando na verdade queríamos ter escolhido o oposto. A liberdade é inteira ou por partes? Ter o melhor de dois, três, quatro, mundos é ser livre? O silêncio incomoda ou será antes liberdade? Estou a redescobrir, a recriar o conceito de liberdade e a posicionar-me novamente perante ela. Estava mais ou menos arrumada, mais ou menos adquirida, só que não.

Esta semana cometi o enorme, enormíssimo erro, no entanto uma excelente escolha, de começar a ver “Kalifat”. Uma série que conta sobre a perspectiva das mulheres o que é o estado islâmico, o islamismo, a fé, a aparência e a fragilidade dos valores em que a Europa está assente, a inerente liberdade tão desejada por estas mulheres - e a violência em que vivem sobre o autoproclamado estado islâmico.

Sim, foi um grande disparate ter começado a ver porque a série é tão boa como viciante e tão violenta como revoltante. 
A protagonista arrisca a liberdade: quer fugir daquele inferno, telefona às escondidas para a Suécia num desesperado S.O.S e cada vez que o faz, corre o risco de ser apanhada e decapitada em praça pública. Esta mulher aparece em quase todos os planos com uma bebé de 4 meses ao colo. Para além do cenário de guerra em que vive, atravessa a fragilidade dos primeiros meses da maternidade.
Tudo isto potencia revolta e uma ansiedade galopante que o meu estado de graça aumenta - projecto-me no que vejo. O que aliás é um defeito de profissão, estou treinada para viver e sentir como se fosse “a outra” e nem sempre consigo separar-me disso.
A série é fantástica mas completamente contra indicada para a minha sensibilidade do momento.
Contudo dá que pensar. O conflito na Síria existe há tantos anos e surge-nos tantas vezes machado de sangue e de agonia que também o tomamos por dado adquirido. Sabemos que a situação está mal, muito mal. Sabemos que as pessoas morrem, fogem, afogam-se. Sabemos que existe o Daesh (ainda que enfraquecido de momento mas não tenhamos ilusões, está a reorganizar-se para ganhar forças e atacar) mas estamos longe de imaginar este verdadeiro inferno na terra, onde mulheres são oprimidas, violentadas física e psicologicamente e não têm liberdade sequer para ter um telefone. Aqui, ir à mercearia sozinha, ter um telemóvel ou pensar em liberdade, é sinónimo de uma grande sova que poderá acabar em sentença de morte. Qual é a mãe que ousaria deixar uma bebé de 4 meses órfã, entregue a fanáticos religiosos?
Estas mulheres estão tão longe de uma qualquer liberdade, assim como nós vivemos tão longe da realidade “ Alá Macba”,  mas ainda assim vivemos tão perto deste inferno que poderá ser a casa de um vizinho: “Homem que obrigava companheira a prostituir-se, agredindo-a sistematicamente, alegando ser motivação profissional é hoje sentenciado em Coimbra”.  Quantos quilómetros tem a distância? O estado revés do estado islâmico mesmo aqui ao lado, no mesmo noticiário. Que liberdade teve esta mulher até ao dia da sentença do homem? 
Homens, mulheres, crianças, idosos, animais, são diariamente explorados, abusados. A muitos foi-lhes retirado logo à nascença a liberdade, o respeito, a dignidade. A que distância me encontro deles? O que faço eu com distância? De que liberdade falo quando falo em liberdade? Como posso eu, cidadã europeia de um estado laico, usar-me da minha liberdade para libertar outras mulheres?
Perguntas, algumas com resposta outras com um grande silêncio. Sei no entanto que o meu quotidiano para muitas delas seria o paraíso, tudo o que mais desejam para si e para os seus bebés - Seria a liberdade tão desejada e tão longínqua. 

Serei eu livre sem saber?




25 de março de 2020

A vida em aberto

Foto de Joana Bourgard


Devemos sonhar novamente com carruagens de comboios,  já que os céus se cansaram de aviões. 
Podemos se quisermos, voltar a deslizar as rodas das malas pelos corredores apertados de um vagão,  alguém na nossa direcção e um tem de ceder, recuar ou avançar, com licença, por favor, desculpe. Gestos e palavras envolvidos no cheiro ácido a linha férrea e o balancé do corpo que começa. Para cá e para lá. É bom que as pernas estejam fortalecidas, ajuda no equilíbrio. O cheiro a linha férrea permite-nos com grande facilidade aceder a uma qualquer memória, a um saudosimo feito de comboios.  

Cheguei finalmente à minha carruagem, abri as portas deslizantes do compartimento com as duas mãos em simultâneo e com curiosidade, estava vazio, por enquanto. Numa viagem de comboio sabemos muito pouco. Não sabemos quanto tempo vamos ficar sozinhos, ou quem nos irá fazer companhia, por exemplo. E que dois exemplos tão determinantes. Já a viagem não é determinante, nem fechada. Está em aberto.
Uma viagem, uma janela, e o mundo lá de fora passa a correr, mil frames por minuto, mil frases por segundos que não se conseguem dizer, apesar do esforço e das tentativas. O corpo continua quieto, apesar do estímulo. A viagem demora-se nestes tempos apressados. As imagens serão sempre a correr, mas o tempo, imagine-se, desacelerou!

É preciso pararmos o tempo para ligarmos Viena a Istambul, ligadas entre si por outro tempo. Estão situadas, por assim descrever, numa coordenada poético-matemática só alcançável para alguns, e sim,  agora também desertas e isoladas como qualquer capital do mundo. Viena e Istambul namoram noutro tempo e agora, mais do que de distância, morrem de saudade. Mas o Expresso do Oriente  continua a existir como sempre existiu para mim,  à distância, numa localização poético -matemática, por assim dizer. 
É uma equação que tento resolver para me consolar em dias de apatia e irratibilidade.

Deixo-me embalar pela percussão da marcha do comboio , lá está - poético-matemática, pela Karenina de Tolstoi, e porque não? É calhamaço suficiente para aguentar uma quarentena ou para me acompanhar na distância que vai de Viena a Istambul, e acalmo-me. O Tolstoi inquieta-me,  mas viro a página. Afinal temos todo o tempo no mundo, ele está parado. Nós parámos e por isso os aviões pararam, as fábricas, as escolas, os restaurantes, os artistas, a produção parou, mas o sol, a lua, os pássaros, as aranhas, os pensamentos, as frases e as imagens por segundo, não pararam. E o comboio, aquele que ainda podemos apanhar está, agora parado, à espera. Vais entrar?

As estações também definem os comboios e não há alívio mais aliviador do que o suspiro demorado e profundo de um comboio a chegar à estação. Há sempre alguém que entra e sai. Há um fim e um começo e isso traduz a simplicidade das coisas difíceis. A viagem ainda assim, continua. Está em aberto.
O comboio tem uma poesia que o avião não tem, mas há que ter tempo - quer para a poesia quer para o comboio, e sobretudo, há que deixar correr o tempo numa viagem em aberto. 

O Expresso do Oriente é o meu ex-libris em viagens demoradas. Pode ser um work in progress, um happenig. A vida em aberto que contrasta com a eficácia e monotonia de um avião - fechado.


Must