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Imagem de Harvard Business Review. |
liberdade, liberdade
Estamos
imersos em informação, e desinformação, sobre o coronavírus. E porque não sou
médica, nem de saúde pública, nem de investigação em qualquer área sequer
tangente, limito-me a seguir as directivas da OMS e a observar. E o que observo
é isto. O mundo fechou portas e abriu, de facto, as janelas do online. Sei:
vivemos um tempo único na história. Há um antes e haverá um depois. Não por
causa desta pandemia. Mas porque ela é o efeito desencadeador do futuro como o
havemos de o conhecer. E porque ele ainda é embrionário podemos, devemos
pensá-lo, co-criá-lo. Explico sumariamente.
Sempre
li tudo. Romance. Poesia. Ensaio. E policiais, espionagem, banda desenhada. A
imprensa e ficção científica. O bom, o mau e o assim-assim. Encontra-se, por
vezes, grande pensamento em péssima semântica e sintaxe duvidosa - e vice-versa,
o que é muito mais grave pois impressiona o indígena, como diria o tio Eça. Ora,
as distopias, em boa ou má literatura, de qualquer género ou proveniência, não
são apenas a elaboração do futuro, construídas sobre os nossos passados políticos
e sociais somados a fantasias culturais, tecnológicas e científicas assustadoras.
São também um indicador e uma moral.
Vivemos
em democracia. Não vivemos uma distopia, a menos que estejamos diante da
televisão ou do ecrã a ver The Handmaid´s Tale. Ou a reler Orwell. Mas neste
exacto momento, estamos também com um pezinho em The Island, o filme, e outro
em Foundation, de Asimov, e a respirar os ares de 2084, de Sansal Boualem. Porquê?
Já
cedemos a privacidade como valor e procedemos à sua metódica destruição. Neste
novo mundo tecnológico em que vivemos, sete anos levam-nos ao princípio do
tempo. Há sete anos, escrevi no jornal Público sobre o Riot. Uma tecnologia, no caso um
software, criada com propósitos militares pela empresa Raytheon, à venda,
então, a quem quisesse pagar por ela. O que oferecia? (tem aqui resumo e link) "Tudo sobre si: horários,
hábitos de trabalho, alimentares, viagens, família, relações pessoais. Como?
Com os dados que lhe dá de bandeja. Big Brother, olha para mim… Em
cada fotografia tirada com o seu smartphone, que regista hora, data, latitude e
longitude, em cada post do seu Facebook, no cruzamento dos seus mil amigos
desconhecidos com os seus familiares e colegas de escola, nos emails
profissionais e pessoais, quando passa na portagem, em cada compra com o seu
cartão de crédito, e com os seus cartões de cliente, nas ruas pejadas de
câmaras onde passeia com os miúdos e o cão, está aberta uma porta que jamais
voltará a fechar-se: a da sua vida. O novo lugar público é o espaço privado que nele caiu - nem sequer é a sua casa. O novo lugar público é você e sou eu. Desde o dia em que decidimos que ser é comunicar que se é, a mise-en-scène substituiu a realidade, e a dinâmica relacional é a do exibicionista e do voyeur… A privacidade pertence a um mundo que já não existe. "
E
vimos os resultados deste tipo de comércio no palco político. Trump, Bolsonaro, e criaturas afins, são a directa consequência da informação que partilhamos
sobre nós, livre e voluntariamente. Os dados são armazenados e tratados e
utilizados em cada recomendado para si, funil onde estreitamos o próprio pensamento e consequentes acções. Seja um livro, um vídeo, um
restaurante. Somos o que pensamos. Acrescentaremos agora, hoje e nos próximos sete anos, os dados
que faltam. Os de saúde como em The Island. Exactamente o que a China já está a
fazer com os residentes de Hubei, desde a geolocalização à temperatura
corporal. E nós também, apenas não os estamos ainda a facultar às autoridades -
quantos lances de escadas subiste hoje, Guilherme? E os do trabalho. Estamos na
génese da nova revolução. Estamos a produzir, voluntaria e involuntariamente informação maciça. Começou a revolução laboral – ripple effect ainda
incomensurável. A partir daqui, muda tudo. Se podemos produzir a partir destas
pequeninas unidades em que vivemos, porque continuaríamos em estruturas
gigantescas de elevadíssimos custos e consumos? E quem seremos, quem poderemos
ser neste equilíbrio precário entre a atomização e a super-consciência, o
super-cérebro em rede? E como?
Paradoxalmente,
talvez o meu fascínio por distopias me afaste do cinismo e do pessimismo. Ao
contrário do apregoado não é, nunca foi, o darwinismo social o gerador de
grandes e benignas mudanças ao longo da nossa história, foi, sim, gerador de
grandes catástrofes, felizmente, auto-circunscritas: inquisição, nazismo,
estalinismo... A cooperação conduz a alterações de paradigma de outra natureza,
e duradoura, e tem promovido o aumento da escolaridade média, da média de vida,
da riqueza per capita, da igualdade de género. O crescendo civilizacional é
inversamente proporcional aos vícios de poder dinásticos, mais ou menos nepotistas,
autocráticos, narcísicos, mais ou menos corruptos.
...é verdade. A minha Alexa ouve tudo o que digo. Qualquer dia...o que penso.
ResponderEliminarE responde...
Eliminar0 (ZERO)! Hoje nada Eugénia. Que texto bom, o recato, cada um com o seu devido à necessidade de cada um, é necessário! Agora ter os olhos abertos, isso sim é sem dúvida uma necessidade absoluta e actual.
ResponderEliminarHá dias, aqui, falei da liberdade que se perde paulatinamente. Atentos!
Que bom mantra, Guilherme: atentos!
EliminarGostei mesmo muito desta tua função matemática - também ela exponencial curiosamente: "O crescendo civilizacional é inversamente proporcional aos vícios de poder dinásticos, mais ou menos nepotistas, autocráticos, narcísicos, mais ou menos corruptos."
ResponderEliminarFuturo adiante!
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