2 de abril de 2020

Salazar, Delgado, Henrique Galvão, personagens da Correspondência de Sena


Para acicatar o ócio dos Tristes agora aqui confinados, trago-vos os trabalhos e os dias de um editor. E não há nada mais triste do que um editor que vive de livros confinados e livrarias proibidas. 
Os Dias e os Trabalhos de um Editor
Manuel S. Fonseca
Caro leitor, não queira saber a alegria que foram os dias em que trabalhei para que este livro nascesse: Correspondência (1959-1978), Jorge de Sena – João Sarmento Pimentel. E o espanto e júbilo com que li as primeiras cartas que a Isabel de Sena, a organizadora com Rui Moreira Leite, me mandou.
Mas deixe-me, caro leitor, começar pelo princípio. Este livro junta as cartas que um escritor e ensaísta, Jorge de Sena, trocou com um capitão, João Sarmento Pimentel, o mais exilado dos exilados portugueses. Estavam ambos exilados no Brasil, em cidades diferentes e carteavam-se para fazer oposição a Salazar. Se julga que ler cartas é uma chatice com o comprimento da Ponte sobre o Tejo, é porque não leu estas cartas.
Jorge de Sena é o portento intelectual, controverso, por vezes iconoclasta e impiedoso, que já conhecemos, mas a prosa viva, coloridíssima do capitão Sarmento Pimentel, que Salazar exilou, é uma refrescante surpresa também.
Deixe-me destabilizar qualquer possível ideia feita e apimentar um bocadinho a sua perversa curiosidade:
– não lhe vou dizer, nem como tratavam Salazar, nem que petits histoires dele contam;
– Humberto Delgado e Henrique Galvão são personagens recorrentes. Está quase a fugir-me a língua para a verdade, mas não, não direi que epítetos merecem aos autores, nem as circunstâncias das lutas intestinas que retalhavam a Oposição a Salazar;
– a expressão “comuna” surge regularmente e não é para referir a Comuna de Paris;
– os opositores reunidos em Argel, Manuel Alegre incluído, têm um retrato à la minuta e mais não digo.
Que prodigioso contributo histórico aqui está sobre as vivências, dramas, grandeza e mesquinhez da luta política! Além da política, este é um livro de amor à literatura e um hino à gigantesca e desinteressada amizade que dois seres humanos. E vem-me à memória uma frase batida: lê-se como um romance.
Experimente ler estas cartas soltas.
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