27 de agosto de 2020

12 de agosto de 2020

bilhas de leite

 




Zé Manduca era o caseiro dos meus avós. Era um touro de força. E igualmente bruto.

A sua primeira tarefa do dia era ordenhar as vacas. Elas gostavam dele. Deixavam-se estar, tranquilas, enquanto ele as aliviava do excesso. Antes de seguirem para o pasto, havia sempre uma que se despedia com turras e encontrões que ele retribuía. Essa acabou por morrer no colo dele com um vitelo entalado. Trazia o leite ainda quente para o pequeno almoço dos patrõezinhos – o meu Pai e os seus quatro irmãos. Se não tivesse sobrado manteiga, pescava-se a nata com o dedo e comia-se no pão. Nas mãos dele, as bilhas até pareciam vazias. Num desafio de machos jovens, um dos meus tios tentou levantar uma. Nem se mexeu. A partir daí, Zé Manduca passou a herói. Mas quando bebia, metia medo. Bom tipo, mau vinho.

Desaparecia o resto do dia, nas suas tarefas de Hercules açoriano. Só se ouviam os latidos do Cara Negra, marcando os cantos da quinta, trotando no seu encalço como se fosse o dono.

Os meninos cresceram e foram estudar para o continente. Os meus avós mudaram-se para a Cidade e deixaram a quinta aos fetos-reais. Fora dela, Zé Manduca estava fora de contexto. Sem jeito. Ainda lhe deram um lugar na empresa da família. Nunca se adaptou.

Depois veio o progresso. A Cidade passou a ter semáforos. Abriu o Hiper. Na véspera da inauguração, mais de mil pessoas pernoitaram no parque de estacionamento. Choveu, como de costume. Um homem deu uma surra à mulher por ter gasto as economias de uma vida num trem de cozinha. Era em inox, justificava-se ela debaixo da pancada.

Numas férias grandes, o meu Pai foi visitá-lo. Encontrou-o velho e cansado de olhar para os pés. Não tinha nada para fazer. Isso não faz bem à cabeça de um homem. O meu Pai ainda propôs ensinar-lhe a ler. Disse que não tinha serventia para ele. Tal como ele não tinha para ninguém.

Alguém disse que o viu saltar da rocha, chamando às mãos o destino, tão pesado como as bilhas do leite.   

  

                    imagem    Ana Marchand                     texto      Ana Monjardino

7 de agosto de 2020

Over the Edge


Over the Edge (i), República Centro Africana, 2020.




Over the Edge (ii), República Centro Africana, 2020.

Over the Edge (iii), República Centro Africana, 2020.


Over the Edge (iv), República Centro Africana, 2020.


Over the Edge (v), República Centro Africana, 2020.

Over the Edge (vi), República Centro Africana, 2020.

 

4 de agosto de 2020

O meu feliz Algarve culpado

 
 
Daqui, só ouço agora, culpado, o som das gaivotas, do grilo e do mar
 
 
Só ouço o som das gaivotas, do grilo e do mar. Há trinta anos, talvez mais até, que não ouvia da varanda de casa o suave murmúrio das ondas do barlavento algarvio. Há trinta ou mais anos que a paz noturna do silêncio do oceano era abafada pelo ruído do progresso. Progresso, era esta palavra, e o livre acesso democrático ao mar que ela transportava, que tudo justificava. Até o sacrifício do som das gaivotas, do grilo e do mar. E é esta mesma palavra, progresso, e todos os sacrifícios que o seu reverso implica, que me faz agora sentir o mais culpado dos seres. Culpado com uma culpa que não senti quando me tiraram, a mim e aos meus felizes companheiros de verão da minha melhor juventude, a utopia prometida pelos dois meses inteiros de julho e agosto que, ano após ano, a todos nos reunia debaixo do mesmo manto protetor de um sol que parecia não ter fim - vindos, uns de Lisboa, outros do Porto ou das profundezas do Alentejo, outros ainda, os poucos que já aqui viviam o ano todo, logo dali da porta ao lado. Nesses anos algarvios de descoberta, todos fomos tocados pela graça dos primeiros amores desencontrados de verão: em algum momento todos os rapazes gostaram da Luísa ou da Patrícia ou da Mafalda e todas as raparigas gostaram do tipo errado, um tipo que só estava de passagem e a quem nós, os rapazes da irmandade de todos os julhos e agostos, encontrávamos sempre algum defeito. Todos fomos levados pela mão invisível da emoção para as festas dançantes em garagens ou a céu aberto, todos vivemos picos de afirmação e amarguras de rejeição, assomos de confiança e crises de insegurança, momentos de euforia e de desencanto, com uma única certeza que nos tranquilizava, a de que nunca nada nem ninguém, em circunstância alguma, nos arrancaria da pele o pacto da fidelidade jurada ao lugar onde todos convergíamos, nesses meses de julho e agosto. O nosso lugar comum, o lugar de onde vinha o mais fundo da felicidade que em nós morava, o lugar que era o único e insubstituível protagonista das histórias das nossas vidas. Um lugar sem tempo, ou com todo o tempo do mundo nele contido, o de um universo, misto de realidade e fantasia, de experiência e de imaginário, um lugar em que toda a liberdade de movimentos era permitida nos curtos quinhentos metros que o circunscreviam, sem outras regras que não as que o comum sentimento de pertença inconsciente e espontaneamente ditava.
 
Até que veio o betão. Primeiro, quase impercetível para ninguém dar por ele. Só uma sombra ligeira a insinuar-se pelas casas, jardins, pátios e descampados por onde a nossa liberdade se espraiava. Uma entrada tímida que, a pouco e pouco, foi perdendo o pudor até invadir, com uma gigantesca mancha, quase todo o espaço da nossa memória coletiva. Subitamente, todo o verão era já passado. Já não lá estavam os sítios das eternas promessas, das juras de amor, dos desencantos tornados encantos, das esperanças tornadas certezas, os sítios onde tudo começou e nos pareciam inamovíveis, feitos de uma pedra que nenhum betão poderia destruir, tal como, antes de nós, sempre o foram para as gerações que nos antecederam.
 
Tudo em nome do progresso, segundo nos disseram. Talvez nos quisessem cobrar a dívida de tantos anos de privilégios e ilusões clandestinas. Muitos não aguentaram o preço e, para salvar a memória de um tempo fundador (de cumplicidades, amizades, amores, até de famílias), partiram para sempre. Outros, como eu, resistiram ao adeus definitivo, na convicção de que, ainda assim, subsistia a esperança de um legado, que passa de pai para filho, que estava por cumprir. E, no íntimo, talvez com a expetativa de que, uma tarde, uma noite, ainda que por breves horas, conseguiriam virar as costas à mancha de betão e voltar a ouvir o som das gaivotas, do grilo e do mar da varanda de casa.
 
E, agora, que finalmente voltei a ouvir o som das gaivotas, do grilo e do mar, que voltei a cheirar a maresia, que voltei a sentir a limpidez do ar e da água, que voltei a ver o horizonte sem sombra, carrego a culpa que antes recusei. Uma culpa de décadas, por ter vivido o que outros não viveram, por ter cravadas na pele memórias felizes onde outros só têm cicatrizes, por saber reconhecer a quietude do silêncio onde a outros só ecoa o ruído que os fez surdos. Agora, que a mancha do betão se tornou invisível, não me larga a sombra do progresso que me roubou a utopia. E, lá dentro, ouço as vozes desesperadas dos filhos do progresso a quem o silêncio das gaivotas, do grilo e do mar tudo rouba.
 
De mão dada com o meu filho na varanda, resta-me a consolação de saber que ele não a sente, a culpa. Que vê, ouve e sente o mesmo do que eu, sem culpa. Onde não há memória, digo-lhe em palavras que um dia haverá de compreender, não há culpa. Consola-me acreditar que talvez o legado dos meus avós e dos meus pais se cumpra. De pai para filho.
 
Praia da Rocha, julho de 2020

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