28 de junho de 2020

um dia. Ontem




JAIN GHAT

A miúda corre, um prato nas mãos com restos de comida.
Saia cor de rosa, colete rosa mais claro, camisa preta.
Agacha-se onde corre uma água saída de um cano.
Urina.

Enche o prato com água e bebe.
Depois lava o prato.

Passam bandos de pássaros. Pombos e papagaios verdes.

Um miúdo de camisola vermelha lança um papagaio de papel. Verde.
Um barco a motor passa.

Dois homens transportam aos ombros imensos bambus.

A PAREDE DE PEDRA do topo do ghat é caiada. Branco e verde água, jade.
«Vegetarian Phulwari» restaurant, escrito na parede.

Duas cabras pretas. DEITADAS. Uma dorme. Outra observa o que se passa.

Os bambus caem. Resvalam. Rolam e descem as escadas até ao rio.



imagem e texto Ana Marchand


26 de junho de 2020

DESTEMIDAS? SIM, OBRIGADA




Destemidas é o bom título português de Les Cullotées, inicialmente uma tira de BD, criada por Pénélope Bagieu, no blog homónimo do Le Monde, sobre trinta mulheres admiráveis que ousaram mudar o mundo. Mulheres destemidas. Depois do sucesso das tiras, o sucesso em livro, publicado pela Gallimard, e amplamente traduzido. Premiado. Por fim, a série da France Télévision, apoiada pelo Programa de Media da União Europeia.

Foi esta série emitida pela RTP 2, com este conteúdo, que viu o episódio sobre Thérèse Clerc transferido do espaço online infanto-juvenil Zig-Zag para a RTP Play após queixas de tele-espectadores ao Provedor da RTP e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tendo o Partido Renovador Democrático anunciado já uma queixa-crime contra a RTP.

O que desencadeou a fatwa ultra-conservadora foi o percurso de Thérese Clerc, de católica e casada a marxista, divorciada e lésbica, activista. Feminista. Não sendo demais referir que foi a marxista, divorciada, lésbica, activista quem se insurgiu contra a violência doméstica, a criminalização do aborto, e quem abriu a primeira universidade sénior, quem lutou pelos direitos LGBT. Mas tudo quanto fez desaparece diante de um beijo na boca. A uma mulher. E se afunda na luta pelo direito ao aborto.

Sendo eu católica, essencialmente conservadora, de um PSD que, por vezes, me dá vontade de voltar ao socialismo utópico da minha destemida avó, ateia, e defensora do aborto e da condenação efectiva de quem batia em mulher e filhos, devo dizer que muito me surpreende que a homossexualidade, a religião e o aborto, liberdades constitucionalmente garantidas por este Estado de Direito em que vivemos, possam ser consideradas matéria imprópria e censurável, por muito que possam, e em simultâneo, ser práticas inaceitáveis para pessoa A ou B, no exercício da sua liberdade de escolha pública ou privada. Cito:

«O programa infantil da RTP2 promove aborto, divórcio e homossexualidade. Segundo a Rádio Televisão Portuguesa (RTP), ‘o Zig Zag é o espaço infantil da RTP dedicado a crianças entre os 18 meses e os 14 anos’. Neste programa, que mostramos, é escandalosa a defesa e promoção do aborto, conseguido como uma vitória, e não uma derrota, para a sociedade, como se a morte de um bebé inocente pudesse ser uma coisa boa. Faz-se, também, o elogio a uma mulher, com 4 filhos, que sai de casa para ir viver com outra mulher. O ódio ao Catolicismo percorre o vídeo inteiro

A democracia permite a divergência. E exige por junto com a liberdade, responsabilidade. A Associação das Famílias Conservadoras tem direito a expressar a sua opinião, esta supra-citada, ou qualquer outra. Não tem, no entanto, o direito de impor a sua visão do mundo ao mundo, o direito de ver as suas pretensões censórias conseguidas. Não creio que o papel do Provedor da RTP seja o de facilitador e consolador de ultra-conservadores. Muito menos o de lápis azul.  

Destemidas? Sim, obrigada.


25 de junho de 2020

GO ALL THE WAY

GO ALL THE WAY

Gosto de saber que caminho ao teu lado
e todas as liberdades são nossas,
não porque as tenhamos tomado,
mas porque logo ao princípio de tudo
não tínhamos nada a perder
e a verdade escreve-se
melhor do que a mentira.

E dizem que escrevemos como homens…

Escrevemos como mulheres
a quem ninguém ensinou a ser
nem isso nem coisa alguma,
e vida apanhou-nos de surpresa
com a sua realidade feita de
prateleiras de supermercado,
empregos, carros, compras,
casamentos e outras misteriosas
arestas de funcionamento secreto
que não sabemos arredondar.

Não fazemos mais do que viver a custo,
cheias de atenção, de olhos muito abertos,
nem há outra maneira de comer luz,
e agarradas onde ela se prenda,
até a uma nesga de sombra num lugar escuro,
salvas pelos prodígios da beleza pródiga
acima de todo bem e de qualquer mal,
e pela dádiva do riso.

No mundo palafítico de onde viemos
natural é afundar e morrer -
já ganhámos.

20 de junho de 2020

A boca de Boris Vian

VIan_Miles
Boris Vian arranca um sorriso genuíno a Miles Davis
Vejamos, é a boca de Boris Vian. Durante 15 dias não se lhe ouvirá um som, sequer um sussurrado ai. Morreu-lhe o pai. E agora, que já vos dei a notícia, acrescento: não morreu, mataram-no. Eis o que cala Boris Vian: o pai foi morto a tiro, por intrusos, em sua casa, a vivenda provincial da família.

Paul Vian era e não era o pai de Boris Vian. Herdeiro de uma pequena fortuna, dava festas de cem pessoas, prodigalizava aventuras. Merecia hedonicamente o dinheiro que tinha, semeando felicidade. O lendário colapso da bolsa de 1929 deixou-o descalço.

Descalço ou nu, não se encolheu: alugou a grande vivenda aos Menhuin, cujo filhinho seria o prodigioso violoncelista Yehudi Menhuin, e mudou-se para os anexos do caseiro. Poucos anos mais e voltaram as festas. Meteu tantos livros, teatro, música e boémia na cabeça de Boris, que já era o melhor amigo, o pai que, tivessem-no tido Salazar, Malcolm X ou Mao Tsé-tung, muitas chatices se teriam evitado. Eis o pai que dá lições de boémia, o pai a quem se encosta a cabeça adolescente.

Mas vejamos de novo a boca de Boris. Está colada a um trompete. Foi o pai arruinado que lho comprou numa Feira da Ladra. Por influência de Menhuin, quem sabe, Boris que estudou matemática, latim e grego, quer ser músico. Que outra coisa pode ser um miúdo com o reumatismo cardíaco que o médico lhe descobriu?

Agora olhem outra vez para a boca de Boris Vian, para o sorriso bonito, de tão gentil ironia, com que fala ao dono das Edições do Escorpião. O homem está, como eu, aflito com as contas da editora. A pandemia desse tempo fora a tropa nazi que deixara devastada a França, entretanto libertada. Vian casara com Michelle e vivia já em Paris. Tocava em hot clubes e conhecera Duke Ellington. Tivera um filho para quem escreveu uns “Contos de Fadas para Uso de Pessoas Medianas” e tinha na gaveta dois romances. “Queres um bestseller? Eu dou-te um bestseller!” disse ele ao editor escorpião.

E deu. Em dez dias, escreveu um policial, que assinou com o pseudónimo de Vernon Sullivan, para fazer justiça à trama e às personagens da cidade de Buckton, no sul dos Estados Unidos da América. O protagonista era um mestiço que, nesses anos 50, de segregação, se fazia passar por branco e se vingava, desenfreado, da morte do irmão, assassinado por ter dormido com esse tabu supremo, a mulher branca. “Cuspirei nos vossos túmulos” era o livro de cujas páginas transpirava violência com amarescente odor a sexo.

E vejam, já a boca de Boris Vian está em tribunal, acusado de ultraje aos bons costumes, por incitar adolescentes a actos de deboche e sadismo, até por o romance ter sido encontrado, aberto em página de incendiária violência, em cenário de crime, o de uma rapariga morta pelo amante num hotel de Montparnasse.

Autor do livro bandeira que é “A Espuma dos Dias”, em vida a boca de Boris não voltará a saborear mais nenhum êxito literário. A fina tristeza da morte do pai corre nele como rio subterrâneo. Afinal os assaltantes traziam a braçadeira da Resistência, parlamentaram com o pai, as mulheres da casa meteram-se pelo meio, e eles mataram-no com uma rajada. De que o acusariam?

E vejam o rictus feroz na boca de Boris Vian. Tem 39 anos e assiste ao visionamento do filme tirado de “Cuspirei sobre os vossos túmulos”. Levanta-se em cólera contra o que vê e uma síncope dá cabo do seu coração. Vai a enterrar no cemitério onde está o pai. Os coveiros estão em greve e têm de ser os amigos a baixar o caixão e a cobrir de terra o sorriso, boca e corpo de Boris Vian.


Crónica Publicada no Jornal de Negócios

Uma noite no Soho

Esta foi uma crónica escrita num tempo em que se podia ir ao cinema. E em que se podia ir aos bares. Um tempo em que havia uma boémia descomandada, desregrada. Trago esta crónica de volta, amarrada, quase amordaçada, no dia em que me dizem que já se vai poder ir ao cinema. Talvez a um bar. Desde que não se vá, como faziam Francis Bacon e Lucian Freud, a cavalo.



Baco_Freud
Bacon e Freud

Hoje não vou ao cinema. Iria, se me prometessem que lá estavam Francis Bacon e Lucian Freud. Digo-vos quem são. São dois tipos que se revoltaram contra o futuro. Haverá quem diga que são ou eram dois pintores e eu, com a arrogância dos ignorantes, insisto: eram dois tipos sentados pantagruelicamente no presente. Comiam o presente, embebedavam-no e fodiam-no como quem respira, desvairado. Jogavam nas corridas, andavam à porrada, mergulhavam em champagne e caía-lhes o corpo exausto nas cavalariças, ao lado dos cavalos que tanto amavam.


Se eram amantes? Se isso não meter sexo, eram. Bacon, descendente do filósofo homónimo e empirista, era homossexual dia e noite, com vincada preferência por homens mais velhos que lhe arriassem forte e feio. Freud, neto do seu psicanalítico avô, era mais novo treze anos e preferia afundar-se na primordial e perlada fonte feminina. Caroline Blackwood, mulher de Freud durante parte dos anos de vida louca com Bacon, dizia: “Jantei quase todas as noites do meu casamento com Bacon. Ah, e também almocei.”

bacon by freud
Bacon, por Freud


Sim, gostavam de jogar nos cavalos, de se atirar sem rede para os bares do Soho e frequentar vigaristas, ladrões, putas, chulos e mais gente prendada, mas o cimento dessa vida gelatinosa era a paixão pela pintura figurativa que cultivaram como flor de preço.

Ora lembrem-se: aquele tempo era um tempo que prometia arte abstracta para toda a santa e imóvel eternidade. E Bacon, primeiro, e Freud com ele, sentaram-se no presente, com o passado entre as pernas, pintando retratos de pessoas, nus com chapéu, papas aos gritos, meninas com cão branco, a carcaça de um boi no talho. Tenho de dizer: estilhaçaram o raio do futuro. Ainda há dias, seis anos, que interessa, o “Três Estudos de Lucian Freud”, em que Bacon pintou o amigo num delicado equilíbrio de luz e ouro, atingiu o francamente estúpido recorde de 120 milhões de euros, o que, a meu ver, já é mesmo gozar e humilhar o futuro.

freud by bacon
Freud, por Bacon
Na arte e nas noites do Soho, e ai de quem veja alguma diferença entre uma coisa e outra, o que os uniu foi um paradoxal optimismo niilista. Tinham os músculos carregados de energia, de uma força nietzschiana, amoralíssima. Queriam, por junto, luxo e luxúria: pintavam, comiam, bebiam, esmurravam e eram esmurrados como quem faz amor. E eu, hoje, afinal, já nem preciso de ir ao cinema.

19 de junho de 2020

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