28 de julho de 2020

ficheiros inacessiveis III




                                       


O PALÁCIO DO MENDIGO
                                    É A SOMBRA DAS NUVENS







texto Hâfiz
imagem Ana Marchand

24 de julho de 2020

23 de julho de 2020

ENTRE DOIS MUROS DE ÁGUA


entre dois muros de água

Da janela do quarto aberta a toda a luz, vejo as copas da fila de árvores que atravessam a rua e a partem ao meio como Moisés partiu o mar: um povo de folhas verdes avança não entre dois muros de água mas entre prédios duros. Uns, os primeiros, tão velhos, e ao lado um novo e feio, e outro a ser recuperado. E mais outro. Duas gruas altas, novos campanários onde se anuncia o luxo do metro quadrado a oito mil euros. Lisboa ainda é assim, paredes meias de absoluta diferença. Assimetrias agudas. As árvores não querem saber disso para nada e crescem também em altura, chegam já ao quarto andar.

Ao fim da tarde, as gaivotas pousam na grua do lado de lá a ver a noite chegar. E voam só um pouco acima das copas e das cérceas. Eu acho que as gaivotas são gozonas, uns bichos fortes e secos. Vivi quase vinte anos perto da praia, nem quinhentos metros de distância… conheço-as. O cão que passeia lá em baixo de trela não as conhece. Ladra. Do alto ela responde. Provoca. Ele, coitado, ladra e volta a ladrar às alturas. Às gaivotas sai-lhes esta espécie de latido da garganta que nos confunde. Por alguma razão lhes chamam os cães do mar. Mas o cão lá em baixo não sabe. E procura.

Não sei se será assim tão diferente daquilo que as pessoas fazem umas com as outras. Os poderes. Asas e latidos, e em baixo, de trela, cães confusos a ladrar, a morder ar quente e mais nada. Para dizer a verdade, não tenho vocação para La Fontaine, nem para as fábulas e os seus clichés e adversativas exemplares para a construção do mundo à imagem de Portugal dos Pequeninos. Não. Prefiro atravessar grandes muros de água.

17 de julho de 2020

Kalifat



   
“Kalifat” - Netflix 

O que nos é dado como adquirido passeia-se ao nosso lado. Convive connosco como aquele amigo de sempre, que achamos estar lá sempre para nós. Nem as coisas que pensamos serem adquiridas o são efectivamente, nem esse amigo está lá (sempre) para nós. 

O passado dia 25 de Abril bateu-me forte, ou melhor, trancou-me em casa e bateu a porta com força. Eu não estava à espera de tamanho abanão e assim foi, porque a liberdade estava fechada comigo em casa. Não podíamos sair. Não podíamos festejar e talvez por isso, ou assertivamente por isso, ou exclusivamente por isso, por estar confinada e privada de uma série de coisas, lembrei-me de todos os 25 de Abril que festejei. Era jovem e inesgotável. Não havia crepúsculo nem aurora. Eram dias de seguida. Dias sem ponta para se pegar, eram dias a fio. E ao relembra-los, fui feliz. Fui feliz na medida que dura a felicidade de uma memória. 

Coloquei uma Playlist que Zeca Afonso encabeçou e dancei com o meu filho na sala. Ele que ainda é inesgotável e feliz, sem medidas, dançou, pulou e imitou-me, ora nas piruetas, ora nos movimentos meio toscos contemporâneos. O meu filho é um excelente bailarino de dança contemporânea. Fizemos a festa possível. Foi o 25 de Abril possível, mas foi este que me desencadeou um pensamento que tinha como mais ou menos adquirido e afinal o que tenho, são mais do que menos dúvidas. Sou livre?
Nesse dia e nos muitos que se seguiram a liberdade não me deu paz, deu-me voltas e emaranhou-me por caminhos que tinham todos a mesma saída: eu presa ao conceito de liberdade sem poder sair dela. E não me refiro apenas à quarentena a que todos fomos sujeitos. Refiro-me à vida que queremos viver e não vivemos. As escolhas que fazemos quando na verdade queríamos ter escolhido o oposto. A liberdade é inteira ou por partes? Ter o melhor de dois, três, quatro, mundos é ser livre? O silêncio incomoda ou será antes liberdade? Estou a redescobrir, a recriar o conceito de liberdade e a posicionar-me novamente perante ela. Estava mais ou menos arrumada, mais ou menos adquirida, só que não.

Esta semana cometi o enorme, enormíssimo erro, no entanto uma excelente escolha, de começar a ver “Kalifat”. Uma série que conta sobre a perspectiva das mulheres o que é o estado islâmico, o islamismo, a fé, a aparência e a fragilidade dos valores em que a Europa está assente, a inerente liberdade tão desejada por estas mulheres - e a violência em que vivem sobre o autoproclamado estado islâmico.

Sim, foi um grande disparate ter começado a ver porque a série é tão boa como viciante e tão violenta como revoltante. 
A protagonista arrisca a liberdade: quer fugir daquele inferno, telefona às escondidas para a Suécia num desesperado S.O.S e cada vez que o faz, corre o risco de ser apanhada e decapitada em praça pública. Esta mulher aparece em quase todos os planos com uma bebé de 4 meses ao colo. Para além do cenário de guerra em que vive, atravessa a fragilidade dos primeiros meses da maternidade.
Tudo isto potencia revolta e uma ansiedade galopante que o meu estado de graça aumenta - projecto-me no que vejo. O que aliás é um defeito de profissão, estou treinada para viver e sentir como se fosse “a outra” e nem sempre consigo separar-me disso.
A série é fantástica mas completamente contra indicada para a minha sensibilidade do momento.
Contudo dá que pensar. O conflito na Síria existe há tantos anos e surge-nos tantas vezes machado de sangue e de agonia que também o tomamos por dado adquirido. Sabemos que a situação está mal, muito mal. Sabemos que as pessoas morrem, fogem, afogam-se. Sabemos que existe o Daesh (ainda que enfraquecido de momento mas não tenhamos ilusões, está a reorganizar-se para ganhar forças e atacar) mas estamos longe de imaginar este verdadeiro inferno na terra, onde mulheres são oprimidas, violentadas física e psicologicamente e não têm liberdade sequer para ter um telefone. Aqui, ir à mercearia sozinha, ter um telemóvel ou pensar em liberdade, é sinónimo de uma grande sova que poderá acabar em sentença de morte. Qual é a mãe que ousaria deixar uma bebé de 4 meses órfã, entregue a fanáticos religiosos?
Estas mulheres estão tão longe de uma qualquer liberdade, assim como nós vivemos tão longe da realidade “ Alá Macba”,  mas ainda assim vivemos tão perto deste inferno que poderá ser a casa de um vizinho: “Homem que obrigava companheira a prostituir-se, agredindo-a sistematicamente, alegando ser motivação profissional é hoje sentenciado em Coimbra”.  Quantos quilómetros tem a distância? O estado revés do estado islâmico mesmo aqui ao lado, no mesmo noticiário. Que liberdade teve esta mulher até ao dia da sentença do homem? 
Homens, mulheres, crianças, idosos, animais, são diariamente explorados, abusados. A muitos foi-lhes retirado logo à nascença a liberdade, o respeito, a dignidade. A que distância me encontro deles? O que faço eu com distância? De que liberdade falo quando falo em liberdade? Como posso eu, cidadã europeia de um estado laico, usar-me da minha liberdade para libertar outras mulheres?
Perguntas, algumas com resposta outras com um grande silêncio. Sei no entanto que o meu quotidiano para muitas delas seria o paraíso, tudo o que mais desejam para si e para os seus bebés - Seria a liberdade tão desejada e tão longínqua. 

Serei eu livre sem saber?




16 de julho de 2020

DIE OH NO...


poema 21







kenneth goldsmith
poeta artista crítico
fundador editor do indispensável arquivo online "Ubuweb"










                   

14 de julho de 2020

12 de julho de 2020

Bora lá animar isto (#2): MANÉ



Apesar de já termos falado nesta nova rubrica - #boraláanimaristo -, e embora com outros contornos (@anavidigal_painter: o outro título está guardado para o futuro), ontem fui placado pela Ana Vidigal; e que grande placagem! Com a elegância do inglês Maro Itoje e a eficácia do neozelandês Sam Cane fui ao chão num instantinho.

Mas, fiquei tão contente que, qual Ramalho a responder ao Eça, no Mistério da Estrada de Sintra, não resisti e aqui vai:

Diariamente, ora a Ana, ora eu, vamos colocar no Escrever é Triste pequenos e grandes mimos de que gostamos muito; e quem o diz não sou eu, mas a minha partenaire!

Hoje (#2) toca-me a mim, e vou apresentar a MANÉ (Manuela Pacheco, Portalegre, 1978) e os desenhos aleatórios - agora sou eu que o digo - que está a apresentar na edição 9.5 do Festival Walk & Talk nos Açores (http://9.5-pre.walktalkazores.org/p/mane-pacheco).

Drawing insights (from data):

Partindo do princípio que é possível elaborar um registo gráfico das circunstâncias climáticas terrestres, usando autómatos simples movidos a energia eólica, foram produzidos vários desenhos durante o período de “quarentena”, altura em que a inacessibilidade a serviços, materiais e lugares veio justificar e reforçar a importância da simplicidade e desmaterialização do processo. Estes registos, embora não usem instrumentos sofisticados ou contenham qualquer base científica, constituem um resultado directo dos eventos climatéricos num determinado espaço/tempo e são, por isso, uma representação do momento geológico e histórico em que nos encontramos. (Mané, 2020).

Ainda antes de zarparem para os Açores, tive oportunidade de os ver e achei-os notáveis; a título de exemplo aqui ficam alguns. 

S/ título, 2020. Mané.

S/ título, 2020. Mané.

S/ título, 2020. Mané.

S/ título, 2020. Mané.


Must