23 de março de 2020

É este o nosso tema. E agora?


Haja saúde e alegria (poemas não)




"Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine"

Guillaume Apollinaire, Le Pont Mirabeau


Gostei muito do poema do Alegre
(melhor não faria o Ary)
Lisboa está deserta, finalmente
Que era o que mais se queria por aqui

Lisboa não tem Amália (morreu!)
Também fugiu a gaivota do O'Neill
Está deserta, moribunda. O turista
Foi embora, e o tuk-tuk faliu 

A cadeira na mesa do Pessoa
Está agora sem quem nela se sente
Ainda há o elétrico 28
O que falta de todo é mesmo gente

Gostava de roubar ao Ti Manel
Aquele final heróico e esperançoso.
Mas versos com gaivotas em Lisboa
Não sei porquê dá-me sempre para o gozo

Como me falta a arte, tal como a Graça
(Mouraria, Alfama e o Castelo)
Só me dá para finais mal enjorcados
Que jeito, como o turista, nem vê-lo

Percebem assim de forma completa
Como o meu desespero é extraordinário.
Para dar um sinal de esperança, tive
De ir gamá-lo ao Guilherme Apolinário


"Ficou para trás, quente, a vida" I (per te, Italia)

Veneza 2008


Ficou para trás, quente, a vida,
a marca colorida dos meus olhos, o tempo
em que ardiam no fundo de cada vento
mãos vivas cercando-me…

Ficou a caricia que não encontro
senão entre dois sonos, a infinita
minha sabedoria em pedaços. E tu, palavra
que transfiguravas o sangue em lágrimas.

Nem sequer um rosto trago
comigo, já trespassado em outro rosto
como esperança no vinho e consumado
em acesos silencios…

                                              Volto sozinha

entre dois sonos lá’trás, vejo a oliveira
rósea nas talhas cheias de água e lua
do longo inverno. Torno a ti que gelas
na minha leve túnica de fogo.

Cristina Campo
(Tradução de José Tolentino Mendonça)


22 de março de 2020

Ó solidão



Foto de Pedro Catarino, CM

Escrever ainda é mais triste em tempos de cólera. E deixem-me dizer: nunca tinha visto Lisboa assim. Já amei e desamei Lisboa. De Lisboa, ó tão cedo, já me despedi, a Lisboa, ó tão resignado e triste, já retornei. Nunca a tinha visto nesta espúria, ingrata e tão temível solidão. 

Hoje, quatro da tarde, caminhei pelo exacto meio das ruas do meu bairro como se os meus pés calcassem as areias desérticas do distópico A Boy and His Dog, como se eu fosse um só dos Five que dão título ao apocalíptico filme homónimo. As ruas do meu bairro já não são as ruas do meu bairro. São grandes, compridas, intermináveis, cheias de um impreenchível vazio. Nenhum ombro para roçar o ombro, nenhum braço onde pousar a mão, nenhuma face a que possa encostar leve a minha boca, nenhum beijo em voo que venha aflorar-me o rosto. Ó solidão.

Vamos ter fé



Dia 1 do Estado de Emergência. Vamos ter fé.



Nunca antes o homo domesticus foi confrontado com tantas decisões a tomar em tão curto espaço de tempo. Saber como empregar o tempo livre quando se fica confinado às paredes de casa e às vinte e quatro horas do dia é um exercício de alguma dificuldade. Não por falta de opções mas por excesso delas. É claro que há sempre a possibilidade, para quem a tem, de fugir ao tempo livre acrescentando tempo de trabalho. Sim, as empresas deste mundo tecnológico rapidamente perceberão que o teletrabalho em quarentena é um manancial de faculdades infinitas para a pulverização dos limites dos períodos normais de trabalho e tratarão de o manter, com muito menos custos para os seus bolsos claro está, mesmo depois de a tempestade passar. Ora aí está mais uma razão para não exagerar no trabalho em casa e tirar um curso intensivo sobre como escolher com qualidade quando se trata de decidir o que fazer quando se é obrigado a ficar em casa.

Mas, vamos ao que interessa. Para quem tem família, como este vosso amigo, o Monopólio, o Cluedo e o Subbuteo livrar-se-ão das camadas de pó que acumularam em muitos anos (décadas mesmo). A Netflix, a HBO, o Filmin, a TVCine e o videoclube da NOS entregar-se-ão a uma competição feroz para captar a atenção mesmo daqueles que ainda não conheçam o germe (travei a tempo de usar a palavra vírus, que seria de muito mau gosto na atual circunstância) de devoradores de filmes e séries que transportam consigo. Voltarão as reuniões familiares à volta de um écran de televisão, convertido à noite em sala de cinema, e, como em tempos imemoriais se fazia, os almoços e os jantares serão palco de discussão do rico cartaz de programação cultural caseiro. A Peste do Camus e o Ensaio sobre a Cegueira do Saramago procurarão impor-se à pilha de livros que na cabeceira espreita à espera de vez, e terão de coexistir com o Publico e o Expresso neste tempo particular em que a informação credível é de ouro. Tudo isto sem o ruído sonoro imposto pela rua – da rua, apenas chegará o canto dos pássaros a prenunciar que, depois da tempestade, virá a bonança. E de outras casas, virão músicos de todo o mundo em concertos que nos entrarão pelas nossas dentro, para, todos os dias, nos fazerem lembrar que é em casa que se deve ficar neste tempo. E nunca nos faltará o sol das janelas, e o das escapadelas diárias de curta duração destinadas à sua fruição, e, da atividade desportiva, passará a rezar a história que, qualquer canto, parede ou chão de casa é um ginásio em potência.
E para todos os pais, avós ou tios, que de nós estão separados, os smartphones e tablets lá de casa iluminar-se-ão, piscarão e vibrarão diariamente para nos darem o conforto diário de sabermos que estão em segurança. E, enquanto isto, o mundo avançará para os salvar, e a emergência, vamos ter fé nisso, soltará as suas grilhetas para que o dia “eterno e claro” surja, uma vez mais, para nos permitir o longo abraço adiado.
O mundo que ficará depois disto ninguém consegue antecipar. Mas, tal como o navio do Comandante Vasco Moscoso de Aragão do velho Jorge Amado resistiu à tempestade, quando tudo à volta era destruído, porque todas as amarras foram lançadas ao cais, uma certeza há: a de que o nosso porto seguro, as amarras da família e o cais onde atraca, resistirão. E fica a esperança de que, mesmo que nada volte a ser como dantes, não desapareçam os laços comunitários, as correntes de solidariedade, o impulso de humanidade que uma luta que a todos afeta - sem distinção de geografias, raças, credos ou condição económica – tem reforçado. Vamos ter fé.

CLARIM, 15 notas de um emigrante



  1. Não, não, não. Não Vos venho falar das notícias publicadas pelo homólogo argentino, isso é apenas para periodistas de craveira. O que venho partilhar, é um queixume. Em Maputo não há Clarim, nem sabão azul e branco; tive que me adaptar ao produto local. É um paralelepípedo de secção quadrangular, com um volume de aproximadamente um terço do nosso sabão e é embalado em papel-manteiga. Ah! E existe uma versão que se vende assim – na mão, sem nada -, mas muito semelhante na cor e até no cheiro ao nosso querido Clarim. Não fosse a humidade subtropical de Maputo e tinha as mãos sequíssimas.
  2. Hoje, tal como o Henrique M., li no FT, o melhor jornal do mundo segundo o PN, o excelente artigo do Yuval Noah Harari (The world after coronvirus), que já para aí andou a escrever uma data de livros que toda a gente leu, ou diz ter lido. Neste ambiente de resistente resiliência, chama à atenção, entre outros assuntos, para a perca de direitos e liberdades e da possibilidade destas percas se eternizarem e do facto das pessoas chamadas a escolher entre saúde e liberdade, optarem - maioritariamente - pela saúde; remata dizendo que não deveria ser necessário optar. Houve uma frase que me chamou especialmente à atenção: Whenever people talk about surveillance, remember that the same surveillance technology can usually be used not only by governments to monitor individuals – but also by individuals to monitor governments.
  3. (Enquanto escrevo, acabou de ser diagnosticado o primeiro caso de COVID19 em Maputo.)
  4.  Coincidência, das coincidências, deu-se o facto de ontem a Margaret Atwood, que co-ganhou o The Booker Prize 2019, me ter dito, no The Testaments, que … a National Emergency was declared, but we were told that we should carry on as usual, that the Constitution would shortly be reinstated, and that the state of emergency would soon be over. That was correct, but not in the way we assumed. It was a viciously hot day. The courts had been closed – temporarily, until a valid line of command and the rule of law could be reinstituted, we were told. Os escritores, têm, esta obrigação moral, de inventar mundos e ficções de alerta.
  5. Entretanto, cortei o cabelo em casa à máquina 3, e tenho poupado imenso em champô, por este andar, julgo que precisarei de um novo frasco por alturas do Natal; para quem não sabia o que me dar, aqui fica a sugestão.
  6.  Flatten the curve! Sim, a curva, essa prostituta tangente à nossa insanidade.
  7.  Se há profissão que deve estar a ter, agora e no futuro, pressão é a dos psicólogos; bem hajam.
  8.  Teletrabalho: vamos perceber imensas coisas, umas evidentes e que andávamos a tapar com a peneira, outras nem por isso. Como dizia também o Y. Noah Harari, no artigo de que Vos falei no ponto2., avançaremos/avançámos por decreto para uma nova Sociedade; funcionários públicos (as generalizações são sempre muito perigosas, mas…) a trabalhar de casa e protecionismos laborais do sector privado que resvalam poderão traduzir – realmente – um novo modelo que se traduza num paradigma capaz de terminar com esta Idade (ainda estamos na Contemporânea?). Oh Admirável Mundo Novo.
  9.  Para fechar o ponto 8., o A. Pomar diz, e muito bem, que o Governo não devia prometer (mais uma vez o que não pode cumprir) que tudo ficará como dantes; nada será como dantes, devíamos ser convidados para o futuro.
  10. É a Economia Estúpido! Ai meu deus, nem sei se lhe hei de pôr maiúscula ou não!
  11. Por falar em economia, a TAP, a nossa querida companhia de bandeira, de que sou passageiro frequente e GOLD tudo!, da qual o estado (este é que foi com minúscula de propósito) é o segundo maior acionista, pasme-se com 49%, suspendeu os voos de e para Maputo, de momento, até ao fim de Abril. Isto logo a seguir ao governo ter dito que não suspenderia os voos para os Palops… No comments. Eu, neste meu papel de exilado, não sei como irá ser, a correr mal; vejo-me obrigado a parafrasear o meu amigo N. Sousa, à falta de melhor comparação: estamos como os judeus em Varsóvia em 1940.
  12. Eu, que sou pelo mercado e pela economia liberal, gostava que a malta (o Governo e outros) percebessem que não estamos numa economia de mercado, foi decretada EMERGÊNCIA: estamos numa economia de EMRGÊNCIA, pelo que as leis do mercado não se aplicam.
  13. Bem, no meio disto tudo, ainda assim, a iniciativa não para e ontem estive a participar numa conversa dum grupo de amigos no House Party, éramos 6, e bebi uma bela garrafa de vinho tinto, menos um copo que ficou hoje para o almoço.
  14. Contra previsões de todas as casas de apostas analógicas e digitais, cá estamos todos outra vez, os bons, os maus e os vilões!, com uma ou outra aquisição (A. Vidigal) ou reaquisições que saúdo! Avé!
  15. Quebrando o protocolo, pode ser que me tenha passado e que o teor político esteja indelével, mas verdes são os campos já dizia o grande nadador.


Diário - tempo de pandemia - Em Casa 02




em casa - 02

A Primavera começou antes no cimo da avenida. Reverdeceram as primeiras árvores da linha de árvores – porque estão num lugar mais alto onde o sol se apruma? Porque foram as primeiras a ser plantadas? Não sei. Estes mistérios botânicos de luz e calor fazem-me ir à janela, de chávena de café na mão, para ver melhor, como se, de as olhar, eu própria desenvolvesse uns olhos de lobo mau, grandes e explicativos por assimilação não da avozinha mas do verde das copas altas… Não sei.

Todo este tempo, aliás, tem sido o tempo do verbo não saber. É pasmoso, no entanto: quando nos ensinaram as conjugações ninguém nos advertiu que ao longo da vida, uma maioria significativa de verbos conjugados seriam antecedidos da sua negação. Não haver. Não ter. Não amar. Não saber. Não saber está agora no zénite do dicionário de verbos. Não sabemos quanto tempo ficaremos em casa. Não sabemos as perdas que teremos. Não sabemos porque razão as primeiras árvores arredondam as suas frescas copas verdes. Não sabemos sequer como sobrevivemos aos despojos da nossa própria vida. Eu, que gosto da minha casa perfeitamente organizada e tenho o culto do lugar das coisas, às vezes, tropeço em matérias já invisíveis sobre os tapetes, quase nunca caio, mas entorses várias, do tornozelo, o Cão, ao meu colo, a cabeça no meu ombro, o corpo já vazio, leve demais, todo gasto da vida, levo-o assim para morrer com assepsia veterinária, entorse do joelho, nem andar se pode depois de ficarmos sem resposta, nenhuma resposta, o telemóvel funciona, é melhor desligar e ligar outra vez, será que tenho rede, e o email repetidamente actualizado na caixa de entrada, à espera da resposta, nem andar se pode no desemprego, essa semântica de burocrata para não há lugar para ti, para fazeres o que fazes bem feito, nem para seres quem és, inteiro, é impossível não cair com um tropeção destes, não te amo, e as incontornáveis despedidas dos nossos mortos amados, knockout cardíaco, vamos ao tapete.

E assim mesmo a Primavera começa. Começa antes. E continuará depois, uma por uma, em todas as árvores em linha da avenida, verdes: conjugação do verbo sim. Sei lá como.



Must