5 de novembro de 2020
the trip - eileen myles
4 de novembro de 2020
sem nome
Eileen Myles é uma poeta e escritora americana, nascida em Cambridge, Massachusetts em 1949.
«um dos intelectos mais inteligentes e inquietos da literatura contemporãnea» Dennis Cooper
SEM NOME
3 de novembro de 2020
25 de outubro de 2020
os medos também têm Mãe
Vendo o filho mais
novo parado à porta de cesto na mão, a Mãe perguntou porque tardava a ir.
“Os
monstros existem, Mãe?” perguntou-lhe de volta o filho, olhando em frente.
“Existem,
se acreditares neles.” respondeu a Mãe, retomando a costura.
“E vivem
na floresta, nas suas sombras e restolhos?” perguntou-lhe de volta o filho,
olhando à roda.
“Vivem
onde queres que estejam. Chamam-se Medos.” respondeu a Mãe, medindo o pano da
bainha.
“Tenho
medo dos Medos. E a Mãe?” perguntou-lhe de volta o filho, olhando para os
sapatos.
“Escuta com atenção, meu filho. Quando atravessares
a floresta, pisando as suas sombras e restolhos, se vires um monstro, não
fujas. Corre para ele e ele desaparecerá." respondeu a Mãe, cortando o fio
com os dentes.
"Mas" perguntou-lhe
de volta o filho, olhando para ela "e se o monstro fizer a mesma coisa e
correr para mim? É que se os Medos existem, então também têm Mãe”.
A Mãe picou o dedo na agulha, mas sorriu. O seu filho mais novo crescia.
texto Ana Monjardino
imagem Ana Marchand
11 de outubro de 2020
SAVE THE DATE | João Rosa Narciso | Abertura a 24 de Outubro | Galeria Diferença, Lisboa

JOÃO ROSA NARCISO
Com duas pedras na boca
Galeria Diferença, Lisboa
O artista João Rosa Narciso (1996, Rio Maior) realiza a sua primeira exposição individual, intitulada Com duas pedras na boca, na Galeria Diferença, entre 24 de outubro e 21 de novembro de 2020.
A exposição é constituída por peças, desenhos e pinturas de diferentes proveniências e materiais, nomeadamente: pedras encontradas, objetos de barro, tela pintada, vidro pintado e papéis post-it desenhados a grafite. À primeira vista, esta multiplicidade de origens e formas pode fazer notar diversas frentes ainda dispersas e voláteis no corpo de trabalho que o artista têm vindo a desenvolver no escasso tempo que o separa desde a formação em Design, realizada na University of the Creative Arts, em Londres em 2016-2019. No entanto, de facto, a complexidade parece ser de outra ordem. Se nos debruçarmos, literalmente, sobre as obras expostas, a pequena dimensão das mesmas assim o exige, podemos verificar uma linha consistente e unificadora entre elas. As palavras, escritas sempre com o mesmo tipo de letra, estão presentes em quase todas as obras da exposição. Para se ser mais correto e preciso, as obras são construídas através destas palavras, ou seja, as letras que constituem as palavras são elas próprias desenhos que ocupam o espaço bidimensional ou tridimensional em que são apresentadas. Também os materiais onde as palavras são escritas têm relevância: o vidro é frágil, as pedras fortes, os post-it para não esquecer. Esta premissa é uma questão formal. A fonte da letra é manual e encontra-se esborratada e suja. Esta caligrafia, apesar de seguir uma coerência, remete para o que se ensina quando se aprende a escrever e é de entendimento fácil, mas com espessura, o que talvez seja uma referência à formação do artista ou esteja em confronto com fontes usadas no Design Gráfico. Esta caligrafia permitirá não só compor um desenho que ocupe o espaço que lhe foi atribuído e dificultar a leitura, mas também revelar algo que pode ser visto como uma premissa conceptual e que se forma como unificadora da obra. Neste sentido é necessário indicar quais as palavras ou frases representadas: Post poetic dreams; Noites Brancas; testamento; police kills in 2020; america is burning; Regicídio; Military Dreams, Artist as Athlete; peting the working class; dreams on Revolution; “apagar história”???; Bio Politics; banho de água cheia; pés no chão frio; abaixem lá a bola oh bófias, caralho pá!!! e tu também; “eu tinha que ser artist”; nostalgia for the present; Exodo Urbano; fast parenting; talento; unnoticed; digital black face; forguetful; és um porco racista; Mindful Vandalism; mijo amarelo escuro; pandemic dreams; disgraced monuments, cheio de fronteiras; post quarentine Love; Mau Aspecto; Post social trauma. Ao refletir sobre o significado de muitos destes conceitos nota-se não apenas a contemporaneidade de tais ideias, como também a pertinência contestatária e revolucionária que deles advêm.
Ao unificar as questões formal e conceptual a obra de João Rosa Narciso revela-se na pertinência de atirar pedras ou palavras com a boca. Através do arremesso de arte, ou de objetos artísticos, é possível situar o seu lugar de presença, da sua voz e da sua fala, num mundo cada vez mais estranho e opressivo, em que o poder reside omisso e invisível. Neste sentido, a revolução tem que ser feita nas manifestações de rua e nos desacatos com a autoridade. Não é possível omitir que grande parte das obras aqui apresentadas foram realizadas em tempos de pandemia da COVID 19 e em tempos de quarentena obrigatória determinada pelo estado de emergência decretado pelo estado. Como também não é possível esquecer que a voz e as palavras serão, porventura, a expressão limite da liberdade e da independência individual e coletiva. A força das palavras é questionável na medida que o seu isolamento torna-as mais visíveis e legíveis para que se possam fazer ver e ecoar na cacofonia do quotidiano.
Outubro 2020
Hugo Dinis
24 de setembro de 2020
40 anos depois
23 de setembro de 2020
21 de setembro de 2020
Para a Rita perceber
“As Desgraças da vida, são a alegria da arte”
Take 1
Obladi obladá, era a época do gelado Rajá.
Nasci no nº15 da Avenida António Augusto de Aguiar a 6 de Agosto de 1960 e a coisa mais radical que fiz nessa década foi receber o Prix de Turbulence no Liceu Francês Charles Lepierre, ainda as Amoreiras eram mesmo para apanhar as folhas que alimentavam aquelas lagartas que tínhamos em caixas de sapatos e que eram os únicos animais que a minha mãe permitia que coabitassem connosco. Os bichos-da-seda.
Já nessa altura dizia que queria ser pintora talvez por ter sempre à mão canetas de feltro, lápis de cor, de cera e lapiseiras (uma infância Caran D’Ache…).
Nunca gostei de aguarelas e tinha queda para os guaches que espremia com especial gozo.
Apaixonei-me por uma tesoura mais ou menos por volta de 1967 e até hoje ela tem sido a minha mais fiel companheira (só a traí em 1998 quando resolvi fazer uma exposição sem uma única colagem. - não gostei da infidelidade.) Lembro-me de recortar a Jackie Kennedy das páginas do Paris Match e acho que foram essas as minhas primeiras colagens
Para ver se ganhava algum prémio de jeito ou domar a minha indisciplina passei a frequentar o colégio ao lado, o Externato do Parque das Irmãs Doroteias onde passei então a década de 70 a fazer desenhos tipo “Amor é” e naturezas mortas psicadélicas, influência do grafismo da época e da leitura voraz da revista “Schoner Wohnen” (o meu período Rotring…)
No dia 25 de Abril de 1974 não percebi muito bem o que estava a acontecer. Mas calculei que a coisa não fosse má, pois a televisão mostrava muita gente bem disposta nas ruas e eu sempre gostei de festas.
Mas não saí de casa, vi a revolução pela televisão a preto e branco, de robe aos quadrados escoceses, um pouco estupefacta com tanta gente sorridente, “Chaimites” e G3 com cravos.
O meu percurso político também é um pouco peculiar, venho da direita para a esquerda, o que não é de estranhar, pois nenhuma adolescente desinformada como eu era, gosta de um dia para o outro perder privilégios.
Mas rapidamente percebi que me tinha saído a “Sorte Grande” e li tudo o que me apareceu à frente.
Passei da “Colecção Azul” às “Novas Cartas Portuguesas” enquanto o “diabo esfregou um olho.”
Tão depressa como passei dos rios de Angola à Revolução Cubana cheguei aos anos 80.
Entrei na ESBAL em Janeiro desse mesmo ano e percebi que tinha começado a minha vida de adulta.
Take 2
Obladi obladá já não há gelados Rajá.
“Travelling”,” Peeping Tom”, “Mary Smith born in 1989”, “Notorius”, “Tous les chiens de ma vie”, “Phoenix, Arizona”, “O telefone acordou-a às 5.30 da manhã”, “Coats and Clark”, “Casual”, “Besoin d’une jolie fille pour mercredi”, “Insípida”, “Os domingos passaram a ser dias suportáveis”, “Este ano o tempo é que se atrasara, mas eles eram pontuais”, “Elisabeth Alione teve um estremecimento”, “Trois chiens rouges”, “Imbecil”, “ La vengence d’ une blonde”, “Bad day at Black Rock/ Vera Cruz (sessão dupla) ”, “Estrada 175 Norte”, “Cianeto”, “She was a visitor”, “Quebec”, “Peneirenta”, “Pick my box”, “Entre mim e os meus botões”,”Sonso”, “Finalmente”, “ Um, dois, três macaquinho do chinês”, “Aborrecida”, “Bavarder”, Mr and Mrs Donuts”, “Glum”,
“Sem título – colagem”, ”Top hat”, “ Branca de Neve I”, “Branca de Neve II”, “Branca de Neve III”, “Inconfidência”, “Orgulho e preconceito”, “Pourquoi faire simple, quand on peut faire compliqué?”, “Austrália”, “ To have or have not”, “ December the coolest Month”, “I’ve never expected you to come”, “A glimpse”, “Still”, “Colecção Cinema”, “By friends and enemies alike”, “Beija-me idiota”, “Ménage à trois”, “Woman’s work is never done”, “Ao lado de uma menina limpa há sempre uma menina suja”, “Tudo isto e o céu também”, “Madalenas”,”A minha desordem é o meu capricho”, Inaparente”, “Para antes do esquecimento”, “Enquanto Tarzan dormia”, “Super Pop”, “ A maravilhosa tendência para o desastre”,”Janela indiscreta”, “Unforgiven”, “She”, “Ouça-a”, “Acabo de cair da bicicleta”, “Sou uma pessoa pouco sociável”, “Uma rapariga turbulenta”, “Mas”, “Coração Burro”, “El dolor de Lolita”, “Tornei-me feminista para não ser masoquista”,”Acredito ter mãos, acredito ter boca, quando só tenho patas e focinho”, “É – me”,” Agora és minha”, “Não pretendo respostas inteligentes para tudo”, “Nada a fazer”, “Nada a dizer”, “Nada a acrescentar”.
Pinto há 26 anos, a última pintura que fiz chama-se, “ O treino da generosidade”
Texto publicado no Jornal de Letras
Escrito em dezembro 2007
ADENDA: agora pinto há 40 anos, e tenho mais "resmas" de títulos para escrever textos
20 de setembro de 2020
17 de setembro de 2020
A coragem dos tímidos
Coragem dos tímidos
Cão sem dono
Carrasco Santa
Não jogo.
Aspereza
Agrura
Abri as portadas do atelier e a fria manhã de Setembro gelou-me as mãos.
16 de setembro de 2020
"(...) Metaphor for Love”

14 de setembro de 2020
"O Concurso de Bom Gosto"* | (sobre pintar)
Eu
encontro
coisas,
depois
guardo‐as.
Junto‐as.
Penso
que
não
as
perco.
Elas
entendem‐se
entre
si
numa
lógica
só
sua.
Eu
estou
de
fora.
O
tempo
vai
passando
e
depois:
(...)
depois
eu
tento
entrar,
forço,
vou
forçando
e
entro
mesmo,
mas
por
vezes
o
espaço
é
pequeno
e
perco‐as,
apesar
de
nos
misturarmos
eu
mato.
E
perco.
Ou
será
que
ganho?
Nada
é
eterno.
É
isto:
*o título é de Lydia Davis
11 de setembro de 2020
Todos os anos, a 11 de Setembro
eu publico este texto:
A 10 de Março de 2002 descemos uma 5th Avenue deserta e fria. Íamos subir ao Empire State Building, que voltara a ser o maior edifício de NYC. A 366 metros por minuto o céu fica mais perto. Não estava muita gente. Estava até muito pouca gente. Ali e na cidade inteira. De repente, duas enormes colunas de luz azul substituíram o World Trade Center.
Ninguém falou, fotografou ou fez qualquer gesto.Olhamos simplesmente em silêncio. Depois descemos, voltamos pela Broadway até à 51.
Nunca falamos muito sobre essa noite. Voltamos muitas vezes a NYC. Nunca fomos ao Ground Zero. Por respeito
Little Korea, Little Ukraine, Little Italy, Chinatown, Lower East Side (judeus), Little India, Yorville (alemães), Upper East Side (russos), El Barrio (latinos) Hell’s Kitchen (irlandeses) e o maravilhoso Harlem.
Foi de “Littles” que se fez a “Big”. Não vi um único “Novayorquino” de cabeça baixa nesse frio mês de Março de 2002. O que mudou foi o skiline, aquilo que os olhos alcançam. O “coração” da Big, esse músculo involuntário continuou em “littles” batidas tum tum, tum tum, tum tum. NYC será sempre a cidade mais viva do mundo.
Saudades de ti Madalena, por cá continuo ainda.Feliz, como tu querias.
*Adenda de 2020: Olha, há um virús muito contagioso a matar gente no mundo inteiro. Não pude este ano cumprir a promessa de voltar a NYC de dois em dois anos e subir ao Empire. O melhor é fazer de conta que este ano "não conta" pode ser?
9 de setembro de 2020
Sob anonimato
Oeiras candidata-se a Capital Europeia da Cultura 2027.
8 de setembro de 2020
Leonor de Almeida
screenshot
Canto Vago
7 de setembro de 2020
Uma Tristeza na Feira do Livro
1 de setembro de 2020
27 de agosto de 2020
12 de agosto de 2020
bilhas de leite
Zé Manduca era o caseiro dos
meus avós. Era um touro de força. E igualmente bruto.
A sua primeira tarefa do dia era
ordenhar as vacas. Elas gostavam dele. Deixavam-se estar, tranquilas, enquanto
ele as aliviava do excesso. Antes de seguirem para o pasto, havia sempre uma
que se despedia com turras e encontrões que ele retribuía. Essa acabou por
morrer no colo dele com um vitelo entalado. Trazia o leite ainda quente para o
pequeno almoço dos patrõezinhos – o meu Pai e os seus quatro irmãos. Se não
tivesse sobrado manteiga, pescava-se a nata com o dedo e comia-se no pão. Nas
mãos dele, as bilhas até pareciam vazias. Num desafio de machos jovens, um dos meus
tios tentou levantar uma. Nem se mexeu. A partir daí, Zé Manduca passou a
herói. Mas quando bebia, metia medo. Bom tipo, mau vinho.
Desaparecia o resto do dia, nas
suas tarefas de Hercules açoriano. Só se ouviam os latidos do Cara Negra,
marcando os cantos da quinta, trotando no seu encalço como se fosse o dono.
Os meninos cresceram e foram
estudar para o continente. Os meus avós mudaram-se para a Cidade e deixaram a
quinta aos fetos-reais. Fora dela, Zé Manduca estava fora de contexto. Sem
jeito. Ainda lhe deram um lugar na empresa da família. Nunca se adaptou.
Depois veio o progresso. A Cidade
passou a ter semáforos. Abriu o Hiper. Na véspera da inauguração, mais de mil
pessoas pernoitaram no parque de estacionamento. Choveu, como de costume. Um homem
deu uma surra à mulher por ter gasto as economias de uma vida num trem de
cozinha. Era em inox, justificava-se ela debaixo da pancada.
Numas férias grandes, o meu Pai
foi visitá-lo. Encontrou-o velho e cansado de olhar para os pés. Não tinha nada
para fazer. Isso não faz bem à cabeça de um homem. O meu Pai ainda propôs
ensinar-lhe a ler. Disse que não tinha serventia para ele. Tal como ele não
tinha para ninguém.
Alguém disse que o viu saltar da
rocha, chamando às mãos o destino, tão pesado como as bilhas do leite.
imagem Ana Marchand texto Ana Monjardino
7 de agosto de 2020
Over the Edge
Must
-
Volto aos álbuns da minha vida, agora para vos apresentar o tomo 2. Aqui, a escolha é do álbum que me abriu as portas ao mundo do meu ...